
Um senhor abre a cena. Cabelos e barba brancos, talvez setenta anos, dirige-se vagamente a uma adolescente e, caminhando para a câmera, diz ter sido mesário pela primeira vez em 1974. Já a garota revela o desejo de exercer a função pela primeira vez, logo na estreia como eleitora.
Trata-se de uma das peças publicitárias feitas pelo TSE no esforço de sensibilizar a turma jovem para o fato eleitoral deste ano. A mensagem poderia deixar despercebido um aspecto importante. Não foi à toa escolhido o ano mencionado pelo veterano eleitor: 1974 registrou uma das maiores viradas da história política do país, tida por alguns pesquisadores como o ponto em que o poder militar instalado em 1964 começou a perder força. E não foi virada na marra, mas na força popular manifestada nas urnas.
Até ali a resistência era exercida, no campo partidário, pelo MDB. Uma oposição consentida, como foi classificada, pois nascera da vontade do governo militar ao adotar o bipartidarismo, em 1969. O Ato Institucional número 2 criou o MDB para evitar uma Arena sozinha: partido único não daria o verniz de regime democrático. O bipartidarismo comprimiria na Arena udenistas, pessedistas e agregados, ficando a sobra com o MDB.
A fórmula gestada nos estritos limites do poder central fora uma reação ao choque nas eleições de 1965. Passado apenas um ano de governo militar, e para não eliminar todos os traços do ritual democrático, fora mantida a eleição direta de governadores. Dois pessedistas rebeldes, Israel Pinheiro, em Minas, e Negrão de Lima, no então estado da Guanabara, elegeram-se contra candidatos advindos da UDN, principal partido de apoio ao movimento de 64.
O MDB de Minas retratava a penúria no plano nacional. Não tinha sede própria. Ocupava umas salas emprestadas pela União dos Varejistas num pequeno prédio da avenida Paraná. Numa delas ficava o presidente regional, Jorge Ferraz, na outra o secretário-geral Renato Azeredo mantinha o arquivo das fichas dos filiados e outros documentos enquanto ia pitando o seu pito de palha. Dinheiro não havia. Quando necessário recorria-se ao tesoureiro Joaquim Mariano da Silva, o JMS dos aquecedores de água. Eram doações, porque o caixa vivia zerado.
Mesmo assim, nas eleições parlamentares nacionais de novembro, o partido surpreendeu-se e surpreendeu o governo militar. Elegeu 16 das 22 cadeiras em disputa para o Senado e 161 das 364, ou 44% do total da Câmara dos Deputados. Em Minas, como o governo tinha determinado no Ato Institucional número 3, já havia ocorrido em 3 de outubro a eleição, pela Assembleia Legislativa, do governador Aureliano Chaves, ex-UDN, e do vice Ozanam Coelho, ex-PSD, ambos da Arena. Mas a virada também veio com as eleições de 15 de novembro, pela primeira vez sendo usado o processo eletrônico na votação e apuração: Itamar Franco faturou o vaga no Senado e 37 elegeram-se deputados federais.
Analistas concluem que a imprevista vitória emedebista de 74 assinalou a vertente do regime militar, o ponto inicial do declínio. As causas do enfraquecimento responsável pela derrocada eleitoral haviam sido de ordem econômica, com o aumento do preço do petróleo devido à guerra de então entre Israel e os árabes, derrubando o milagre econômico, e disputas internas no poder central. Dez anos depois terminava a lenta agonia do regime.
Ariosto da Silveira é Jornalista.



