Caravaggio nos trópicos (por JD Vital)

Não procure por Michelangelo Merisi, o pintor de Medusa, uma das dez obras mais valiosas do mundo, [...]

Não procure por Michelangelo Merisi, o pintor de Medusa, uma das dez obras mais valiosas do mundo, quando chegar a Santa Teresa, nas serras capixabas, para temporadas de inverno. A 983 metros de altitude no topo da rampa de voo livre.

Ao deparar com setas indicativas do Circuito Caravaggio, não precisa se beliscar: você está prestes a pisar o pedaço de algum burgo lombardo perdido nos alpes tropicais, emoldurado por vilas residenciais, hotelaria graciosa de chalés e estandartes romanos tricolores. Sob temperaturas glaciais que beiram a zero grau nas noites de julho.

Merisi, no entanto, não se encontra por aqui.  Em Santa Teresa, a 80 quilômetros de Vitória e a 500 quilômetros de Belo Horizonte, a Itália, sim, está presente. Nossa Senhora de Caravaggio, também.  Foi a Madona, e não o mago do chiaroscuro, quem emprestou o nome ao roteiro que aquece a alma dos peregrinos.

O artista italiano, morto aos 38 anos de idade, legou à história da arte uma coleção de quadros que fisgaram admiradores ao longo dos séculos. Entre eles, o Papa Francisco.

O pontífice argentino, quando cardeal de Buenos Aires, hospedava-se nas proximidades da igreja de São Luis dos Franceses, no centro de Roma, para contemplar, sem jamais se enfarar, a Vocação de São Mateus, de autoria do conturbado artista. O pintor recrutava, entre prostitutas, mendigos e ladrões, os figurantes das cenas bíblicas, eternizadas em pinceladas que o fizeram conhecido como mestre do claro/escuro e do realismo de cores cruas.

Ele incorporou ao sobrenome a comuna onde nasceu em 1571, a pequetita Caravaggio, localizada na província de Bergamo, no norte da bota latina. E deu-lhe a imortalidade.

Michelangelo Merisi da Caravaggio imitou Leonardo da Vinci (1452 – 1519). E inspirou a dupla Mario Puzo/Francis Ford Coppola na consagrada trilogia cinematográfica de O Poderoso Chefão, que registrou o mafioso Vito como Don Corleone. Os povoados de Vinci, perto de Florença, e Corleone, na Sicília, também saíram das sombras, graças à genialidade dos seus paisanos.

Encravada nas montanhas, a cidade, de ruas varridas e livres de pichações nas paredes, apresenta-se ajaezada em vibrantes tonalidades itálicas, as cores verde, branco e vermelho nas fachadas dos prédios. No centro urbano, sobrenomes meridionais pululam nas vitrines comerciais.  Na praça pública, o busto da escritora Virginia Gasparini Tamanini (1897-1990) louva a poesia. “O mundo precisa de mais poetas”, diz no cartão de bronze que segura.

Apesar de a Itália não ter se classificado à Copa do Mundo, os moradores vestiram-se de orgulho transnacional. Surpreendi-me diante de uma das maiores concentrações já vistas de bandeiras italianas fora da Península e do território da Little Italy, em Nova Iorque, celebrizado na série de TV Família Soprano.

A Itália veio para a mata atlântica dentro dos baús dos compatriotas do gênio da luz e da sombra e pai da pintura barroca que imigraram para o Espírito Santo, no século 19. Velejou em condições que lembram os navios negreiros e se repetem em tragédias migratórias nos cais europeus, particularmente na ilha italiana de Lampedusa, nos tempos atuais.

Os italianos fugiam da fome na Europa. Partiram amontoados nos porões do navio La Sofia, que aportou no estado em 1874. Na bagagem, os sonhos que anestesiam o sofrimento e uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, que alimenta a esperança. Vinham da Lombardia.

A mãe de Jesus acolhe muitos devotos entre os oriundi no Brasil. O ex-técnico da seleção brasileira de futebol Luiz Felipe Scolari já foi visto enfiado na multidão dos 200 mil romeiros que acorrem, anualmente, ao santuário de Farroupilha, no Rio Grande do Sul.

Seu culto nasceu em 1432, quando a Madona apareceu a Joaneta Varoli, uma camponesa lacrimosa que apanhava do marido, o soldado Francesco. O cenário era a campanha de Caravaggio, nas vizinhanças de Milão e Veneza, em ebulição política. A santa viajou para a América, em companhia dos maltratados patrícios de Merisi e Joaneta. No Brasil, a veneração espalhou-se por outros templos, como nas cidades gaúchas de Canela, Erechim, Passo Fundo e Paim Filho e nas catarinenses Joinville, Brusque e Lages.

A igrejinha do Circuito Caravaggio não seduz pela grandiosidade. É uma ode à simplicidade. Aos migrantes e perseguidos. Ela respira a poeira que os carros suspendem quando trafegam pelos 14 quilômetros do sinuoso percurso turístico, ora em implantação pela prefeitura municipal, com trechos convulsionados por obras de calçamento.

É apenas uma capelinha de fachada branca e portal azul à beira da estrada, tímida como a casa da Sagrada Família em Nazaré. A placa anota a data da construção em 1912 e relaciona os nomes dos colonos que a ergueram, com poucos recursos, mas braço forte.

Tabuletas mostram a direção do circuito. Ao longo do caminho, povoado de matas e colibris, o viajante topa com uma fieira de paraísos de culinária caseira, farta em massas, polenta, embutidos e espumantes. Uma delas, o Villaggio Zamprogno. Nela, ornada de chalés, a cozinha serve risotos com sotaque milanês, frutos do mar vizinho e cervejas artesanais saborosas, sob o olhar cuidadoso dos proprietários, os irmãos Alex e Chaid Augusto, mineiros de Cachoeira Escura.

Chaid e Alex zelam pela conservação do rico patrimônio ambiental da serra, inspirados na legislação municipal e no exemplo de um dos padroeiros do conservacionismo: o ornitólogo Augusto Ruschi, aqui nascido em 1915, oitavo dos 12 filhos do casal de imigrantes Giuseppe Ruschi e Maria Roatti.

Os conterrâneos dedicaram-lhe um museu de biologia, uma praça e uma estátua. Uma lei federal nomeou Patrono da Ecologia Nacional este estudioso dos beija-flores e das bromélias, pioneiro nas pesquisas do manejo das florestas tropicais, defensor das populações indígenas. Ruschi estudou na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais.

Antigamente, os mineiros invadiam as praias de Guarapari e Marataízes. Pacificamente, é claro. Não temos uma gota do sangue desaforado do presidente americano Donald Trump, que cobiça territórios alheios, de olho nos mapas da Groenlândia, do Canadá, do Canal do Panamá e da Venezuela.

No passado, porém, o governador Hélio Garcia, lembro-me bem, acalentou, em rompante bandeirante, a utopia de dar a Minas Gerais acesso às praias onde o Padre Anchieta catequizou indígenas, escreveu poemas e construiu capelas e escolas. Garcia iniciou, sem sucesso, negociações com o governador do Espírito Santo Gerson Camata, que foi seminarista em Mariana, uma saída para o mar.

Atapetado de orquídeas e sobrevoado por colibris, o Circuito Caravaggio surge, agora, como nova tentação, alvo da imaginação dos intrépidos mineiros. Sob o estandarte da paz e da preservação da vida.

JD Vital é autor do livro “Se reclutan guerrilleros” sobre o sequestro de engenheiros mineiros pelas FARC, na Colômbia.

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