Resiliência Econômica e Guerras (por Carlos Primo Braga)

A guerra contra o Irã tem gerado uma série de análises sobre confrontos assimétricos, o papel [...]

A guerra contra o Irã tem gerado uma série de análises sobre confrontos assimétricos, o papel de pontos de estrangulamento (como discuti em “Pontos de Estrangulamentos” e Confrontos Geopolíticos (por Carlos Primo Braga) – CapaBrasil) e as mudanças no mapa global de fontes de energia. A crise financeira global (2007-09), os conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio, a pandemia da Covid e a expansão econômica e militar da China vêm contribuindo para uma atenção crescente ao tema da resiliência econômica. Ao mesmo tempo, transformações tecnológicas (por exemplo, o fraturamento hidráulico (fracking) e a perfuração horizontal (horizontal drilling)), a expansão de fontes renováveis de energia e a evolução da inteligência artificial (IA), vêm redesenhando a estrutura global de produção e os padrões de consumo de energia.

As implicações dos eventos no Golfo Pérsico, porém, vão bem além do impacto nos preços de energia, incluindo o impacto na segurança alimentar de muitos países. Mas os seus efeitos sobre a oferta do petróleo e do gás natural no curto e no médio prazo são os temas que vêm atraindo a atenção ao redor do mundo. Como observado por Faith Birol, Diretor Executivo da International Energy Agency (IEA), o choque atual é a maior ameaça já observada com relação à segurança energética global. Cerca de 13 milhões de barris/dia são afetados pelo conflito, em contraste com a experiência no contexto dos dois choques de petróleo da década de 1970, quando cerca de 10 milhões de barris/dia foram impactados.

A China é a maior importadora de petróleo do Irã e os países do Golfo Pérsico são uma fonte importante de oferta de gás natural liquefeito (LNG) para a China e para o mundo. A visita recente (14-15 de maio) do Presidente Trump à China, as cerimônias associadas ao “Summit” e as interações com o Presidente Xi Jinping receberam ampla cobertura da imprensa internacional. É interessante observar que a expressão “pompa e circunstância” foi frequentemente utilizada para caracterizar o Summit. Essa expressão foi popularizada por Shakespeare (Otelo) para caracterizar eventos marcados por aspectos performativos (paradas, banquetes e demonstrações de glória militar). Mas os resultados do encontro foram modestos.

Na prática, os resultados se concentraram em anúncios associados ao comércio bilateral (compras pela China de aviões da Boeing e de produtos agrícolas e a decisão dos EUA de flexibilizar controles de exportação para a aquisição de chips H200 da Nvidia por algumas empresas chinesas). Decisões substantivas no âmbito de tensões geopolíticas, porém, não ocorreram.

China e os EUA reafirmaram a necessidade de normalização do tráfico marítimo pelo Estreito de Ormuz e o consenso de que o Irã não deveria desenvolver armas nucleares. Essas mensagens, porém, têm limitado efeito prático. O recado geopolítico mais substantivo ocorreu na fala de Xi Jinping sobre a situação de Taiwan. Ao mencionar a necessidade de que os EUA e China evitem a “Armadilha de Tucídides”, o Presidente Xi sinalizou a importância do respeito pelos EUA com relação à prioridade chinesa de “reunificação” de Taiwan com a China. A resposta de Trump se pautou por reafirmar a ambiguidade diplomática dos EUA com relação a essa questão, mas nas entrelinhas deixou claro que a defesa de Taiwan não é uma prioridade para os EUA.

A dependência econômica bilateral entre as duas maiores potências econômicas é o principal seguro contra o acirramento do confronto geopolítico entre os dois países. A China precisa de mercados abertos para exportar o excesso de sua capacidade produtiva e alocar internacionalmente a sua poupança exagerada (43% do PIB). Já os EUA precisam não apenas manejar com cuidado os seus objetivos de reindustrialização de forma a evitar a ruptura de cadeias de valor integradas, mas também manter a credibilidade do dólar e o acesso a fluxos financeiros internacionais.

Nesse contexto, a resolução do conflito no Golfo Pérsico permanece como a questão mais urgente para a economia global. A duração do conflito dependerá significativamente da resiliência das economias envolvidas frente aos impactos do choque dos preços de energia. No caso da China, a despeito da sua dependência das exportações do Golfo Pérsico, a existência de estoques estratégicos e comerciais substantivos (cerca de 1,4 bilhões de barris) permitirá ao país administrar o choque a médio prazo (de 5 a 7 meses) sem impactos significativos na economia.

Com respeito ao Irã, a questão crítica é por quanto tempo o país poderá estocar a sua produção de petróleo para evitar o fechamento de seus campos produtores de petróleo, uma possibilidade de alto risco em virtude das dificuldades e do custo de se restabelecer produção caso o fechamento ocorra. Estimativas variam, mas tendem a considerar cerca de 120 milhões de barris de estocagem potencial no território iraniano com um adicional de até 127 milhões de barris em navios estacionados no Golfo. Em síntese, na medida em que se estima que pelo menos 55% da capacidade de estocagem já se encontravam utilizadas ao final de abril, a capacidade iraniana de estocagem não deve se estender por mais do que 60 dias adicionais (se 3 milhões de barris/dia continuarem a ser produzidos).

Para os EUA as externalidades do conflito são menos dramáticas. O país é um exportador líquido de petróleo desde 2019, sendo responsável por 90% da expansão da produção global de petróleo no período 2015-2024 com base na exploração de óleo de xisto viabilizada por inovações tecnológicas. Isso não significa, porém, que os EUA estejam imunes ao atual choque do petróleo já que o país precisa importar petróleo pesado (mais denso e com alto teor de enxofre), em virtude das características de suas refinarias.

As implicações para o consumidor americano têm sido significativas. Por volta de 22 de maio, o preço médio do galão de gasolina nos EUA estava em US$4,55 e em alguns estados, por exemplo, na Califórnia, já ultrapassava US$6,00. Esse é o “calcanhar de Aquiles” da administração Trump: o tema do custo de vida nos EUA e o seu impacto nas eleições do Congresso em novembro. A guerra não é popular e ela já se traduziu em um aumento médio de US$1,50/galão de gasolina desde o seu início no final de fevereiro.

As externalidades da guerra incluindo a destruição da infraestrutura nos países do Golfo Pérsico, os impactos do choque de petróleo nas economias importadoras de energia e o aumento da inflação (com seus efeitos nos mercados de títulos governamentais) contribuem para pressionar a busca por uma solução diplomática para o conflito. O anúncio do Presidente Trump (23 de maio) de que os pontos básicos de um “Memorandum of Understanding” (MoU) haviam sido negociados com o Irã teve um impacto inicial positivo nos mercados. O preço futuro do barril de Brent recuou para cerca de US$91,00 (29/05) e o preço médio do galão de gasolina nos EUA diminuiu para US$4,36 (30/05).

Os detalhes do MoU não são públicos, mas a sua estrutura parece incluir: uma trégua nas hostilidades, a “reabertura” do Estreito de Ormuz para o trânsito marítimo, o restabelecimento do comércio de petróleo e o fim dos bloqueios navais. Em seguida (nos próximos 30 a 60 dias), ocorreriam negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano.

Esses objetivos são bem menos ambiciosos do que o propósito de mudança de regime (uma prioridade para Israel) e o conceito de uma rendição incondicional como sugerida pelo Presidente Trump no início do conflito. Nesse momento, a viabilidade de um acordo nas linhas do MoU está em questão. A trégua já foi violada, por exemplo, no contexto de uma operação caracterizada pelos EUA como um ataque “defensivo” (25/05). Evidentemente, as bases para um sucesso nas negociações diplomáticas são frágeis, dada a mútua desconfiança histórica entre os países em conflito.

Mercados financeiros – particularmente nos EUA – continuam a operar com base na expectativa que esse choque do petróleo será passageiro. A percepção de que as tensões geopolíticas estavam diminuindo gerou uma queda no preço do petróleo, que havia acumulado um aumento de 83% do início do ano até o final de abril, para um aumento de cerca de 54,2% no final da semana passada. Mas caso a navegação pelo Estreito de Ormuz não seja normalizada nas próximas semanas, o preço do barril de Brent pode aumentar para cerca de US$120,00, refletindo o choque de oferta. Além disso, mesmo que a negociação seja concluída com sucesso e o tráfico marítimo seja regularizado a médio prazo, as análises de mercado sugerem que o preço do petróleo permanecerá bem acima dos valores que prevaleciam no início desse ano (US$66,6 por barril em janeiro de 2026).

Nesse domingo (31/05), a imprensa ocidental divulgou informações de que a administração Trump decidiu revisar o MoU, endurecendo algumas das suas cláusulas, em particular, com respeito à reabertura do Estreito de Ormuz. Já a imprensa iraniana observa que do ponto de vista do Irã, o estreito se encontra sob uma nova “administração”, sinalizando o objetivo de impor um pedágio para a navegação marítima. A questão do acesso a recursos iranianos (cerca de US$12 bilhões) “congelados” pelos EUA como condição para reiniciar as discussões sobre o programa nuclear também se tornou um ponto de discórdia.

A única certeza na atualidade é que choques geopolíticos continuarão a impactar a economia global de forma significativa. O papel do Itamaraty em administrar esses choques no contexto da política externa brasileira merece uma atenção especial. Esse tema foi discutido em um webinar recente da iniciativa Imagine Brasil, da Fundação Dom Cabral, que pode ser acessado nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=2r62zsVsIeA.

Carlos Primo Braga é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois Urbana-Champaign, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi Diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial. Autor.

Compartilhe esse artigo: