Hobbes e Freud na eleição presidencial (por Adriano Oliveira)

De acordo com Thomas Hobbes, antes da constituição do Estado, os indivíduos viviam no estado de [...]

De acordo com Thomas Hobbes, antes da constituição do Estado, os indivíduos viviam no estado de natureza, no qual o conflito era permanente. Vencia o mais forte. Não havia leis nem instituições capazes de regular as relações entre os homens. O medo era um sentimento constante, pois, a qualquer momento, um indivíduo poderia atacar outro. Tornava-se, portanto, necessária a celebração do contrato social para a formação do Estado que, por meio de suas instituições, passaria a conter os conflitos e reduzir o medo como sentimento predominante.

Um dos conceitos fundamentais de Sigmund Freud é o desamparo. O indivíduo desamparado pode experimentar diversos sentimentos, como medo, angústia, frustração e tristeza, além da necessidade de proteção. O próprio desamparo constitui uma experiência psíquica fundamental, da qual decorrem esses outros afetos. Importa destacar que o desamparo não precisa corresponder à realidade objetiva; basta que o indivíduo tenha a sensação de estar desamparado para buscar, de forma mais ou menos intensa, o amparo do outro.

Hobbes e Freud ajudam a compreender a atual eleição presidencial brasileira porque ambos, por caminhos distintos, atribuem centralidade ao medo. Esse sentimento explica, em grande medida, as escolhas eleitorais. O eleitor que rejeita Lula teme que outro candidato, como Ronaldo Caiado ou Romeu Zema, não consiga derrotá-lo em um eventual segundo turno. Por isso, tende a apoiar Flávio Bolsonaro desde o primeiro turno. Da mesma forma, o eleitor que rejeita Bolsonaro não percebe Caiado ou Zema como alternativas e opta por Lula. O eleitor convicto de Lula teme o retorno do bolsonarismo ao poder, enquanto o eleitor convicto de Bolsonaro não deseja a continuidade de Lula e do PT no governo.

É o medo que move parcela significativa do eleitorado brasileiro, especialmente os eleitores independentes. Pesquisas qualitativas realizadas pela Cenário Inteligência, por meio do Método SEP (Sentimento – Estratégia – Previsão), revelam esse mecanismo de decisão. Sem o componente do medo, a disputa presidencial poderia ser explicada apenas pela variável clássica: presidentes bem avaliados tendem a ser reeleitos. Essa variável continua sendo robusta e relevante, mas, isoladamente, não explica satisfatoriamente a eleição brasileira.

Desde 2023, no início do terceiro governo Lula, formulei a hipótese de que a reprovação ao governo possui caráter estrutural, e não líquido. Em outras palavras, trata-se de uma reprovação consolidada, relativamente estável e pouco suscetível a oscilações fortes. As pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência e os levantamentos quantitativos realizados por diversos institutos têm corroborado essa hipótese. Por isso, a capacidade eleitoral de Lula não deve ser analisada exclusivamente à luz de sua popularidade. É necessário considerar também o papel desempenhado pelo medo, que, neste momento, assim como ocorreu em 2022, favorece o presidente, já que uma parcela dos eleitores demonstra recear mais um eventual governo Flávio Bolsonaro do que a continuidade de Lula.

O medo do retorno do bolsonarismo ao poder está associado ao conceito freudiano de desamparo. Muitos eleitores criticam o governo Lula, sobretudo em razão do custo de vida, mas reconhecem a importância de suas políticas sociais. Para esses eleitores, tais políticas representam uma forma de amparo diante das incertezas econômicas e sociais. É justamente essa percepção de proteção, somada ao menor nível de medo em relação à alternativa representada por Flávio Bolsonaro, que explica o leve favoritismo eleitoral de Lula.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia.

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