
O jeito mineiro de falar, ganhou a preferência entre todos os brasileiros.
Uma das razões alegadas é que ele fala com uma certa cadência e muita coisa no diminutivo, sobretudo nomes de comidas tais como: arrozin, carninha, farofinha, picainha, carninha de sol, um docinho de leite…
Agora, quando o assunto é instrumento de trabalho, o mineiro nunca o trata com o mesmo carinho. Jamais você verá o mineiro falar: uma enxadinha, uma picaretinha, um martelinho…, não se sabe bem o porquê, mas desconfia- se.
Em algumas regiões de Minas o sotaque é maravilhoso, já em outros deixa a desejar pois Minas são várias, como diria o grande João Rosa. O mineiro da zona da mata tem uma pronúncia muito bem articulada e limpa e não é verdade aquela chacota que se faz com o pessoal de Juiz de Fora falando ” X de Fora”, numa alusão à proximidade com o Rio de Janeiro. Já no sul de Minas a coisa se complica um pouco e com a influência de São Paulo, o ” errrre” é explorado sem dó nem piedade, e fica muito estranho. No triângulo mineiro também existe esse problema do erre paulista, horrivel! No vale do Jequitinhonha o sotaque sofreu influências dos portugueses que aqui aportaram e perde bastante da sua harmonia na fala pois a última letra é suprimida da palavra, o que empobrece bastante o falar ou seja o jequtinhoês! O norte de Minas é impregnado pela fala cantada da Bahia e não ocupa um lugar no espaço da boa fala do mineiro. Portanto o linguajar do mineiro, que mereceu os elogios dos brasileiros em geral, vem da zona da mata, de parte do centro do estado e de Belo Horizonte, onde as coisas boas ao falar com cadência se encontram.
Para se ter uma ideia dos sotaques dessas geraes, foi flagrado no sul de Minas, numa barbearia, o seguinte: depois de terminado o ” façum” da barba e do “curtum” do cabelo, como lá eles dizem, aconteceu o seguinte diálogo:
– “Agora para ” quemar” a barba o senhor prefere ” airco ou tairco “?
– “Verva mesmo tá bom”, respondeu o freguês.
Quer dizer Aqua Velva, um conhecido pós barba utilizado na região e que o mineiro conhece bem.
O mineiro também é famoso por ser o único nesse país que se comunica maravilhosamente sem sequer abrir a boca com expressões, quase onomatopeicas, que só eles entendem perfeitamente entre si, quais sejam: “Huuum, rrrrrr, ranran, argh, hunn”!
Também alguns gestos são famosos e transitam na comunicação dos mineiros, uma coisa “dotro mundo”!
Recentemente, perambulando por essas montanhas mineiras, numa cozinha de uma dessas fazendas das geraes, deparamos com um bilhete sobre uma mesa próxima ao fogão de lenha e que, de tão interessante, fizemos várias leituras dele, colocamos um título prá ele e estamos repassando para apreciação de outras pessoas, vejam só:
MINERÊS: OU NUM TEM BASE NÃO, NÉ SÔ!
“Ansdionte era sapassado, dia sessetembro, taveu na cuzinha tomado uma pincumel fazeno um arroz cumpiqui, ovfrito, uma carnsol vinda de Monsclaros numa casopô. Eu tavusano mastumate pra fazê umacarronada com galinhassada e quascaí de susto, trásdaporta quandouvi um barui vinduforno pariceno um tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá. O fornisquentô, o mipocô e ucu da galinha ispludiu; nossinhora tembasnãosô! Fiquei brandimedo quinem leidivaca e falei: tissodaísô! Foi um trem doidimais, duotumundo, quascaí dendapia; pensei em corré e entrá badacama. Fiquei sensabê doncovi, proncovô, oncotô. Até nisturinha eutava zonzin, zonzin. Fumei umliude cumfiltro e fui pará no pondiôns que fica na rugoiás perda pradaliberdade, em Belzonte.O ônsparô entreidendele perguntei putrocadô: pronostamin? Quanjatavain fiquei pensando: oi procevê quiloucura, indabem que grazadeus ninguém simachucô. Um abrasprocês.”
Traduzir tudo isso é preciso pois é o minerês em estado puro. Ao contrário de um imbróglio recente em que teve um um ex governador(?) como personagem.
A verdade é que um ministro comentou que o sotaque dele era estranho e foi defenestrado por vários incautos, pseudo defensores do sotaque dos mineiros. Ocorre que o sotaque desse desgovernador sempre foi uma coisa insossa, inodora, sem tempero algum, aliás ele fala é um negócio que algumas pessoas aqui nas geraes chamam de “Porco Nês”, aí, meus amigos do esporte, isso é uma coisa indefensável!
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista




