O gato de Lençóis (por Luís Giffoni)

Quando descia pela rua da prefeitura de Lençóis, no sertão da Bahia, encontrei o gato de Alice no País das [...]

Quando descia pela rua da prefeitura de Lençóis, no sertão da Bahia, encontrei o gato de Alice no País das Maravilhas esparramado sobre o peitoril de uma das seis janelas de um casarão centenário. Pachorrento, pelo escovado como se recém-saído do salão de beleza, o animal apoiava o queixo na madeira e deixava tombar com displicência uma das patas sobre a parede, o que incrementava sua pose de preguiça. Pálpebras cerradas, dispensava aos desconhecidos que o acariciavam o descaso de profundo conhecedor da espécie humana: gente chega, gente vai, ele fica. Não se movia nem para agradecer a atenção. Das sete vidas, já tinha gasto seis. Longas, por sinal. Vidas longas de fato.

À sombra do velho beiral de telhas curvas, ele vive no passado. Relembra ex-poderosos da cidade que não pagavam salário aos empregados “para não deixar o povo mal acostumado”. Auxiliados por jagunços, os coronéis mantiveram a escravidão século 20 adentro. Cem anos antes disso, o felino rememora a corrida aos diamantes, quando a região conheceu o auge e ganhou o nome atual: Chapada Diamantina. No entanto, foram descobertas as minas da África do Sul, mais fáceis e baratas para explorar, e Lençóis entrou em maus lençóis: chegou a decadência. A população caiu para menos da metade.

O gato avança pelo passado, mergulha na história da própria Terra, gravada nos canyons, serras e planícies da cidade. Enxerga os terremotos que rasgaram as rochas, treme ante o choque das placas tectônicas a erguer e afundar toda uma cordilheira, foge do mar que invadiu o sertão até secar milênios mais tarde. Então viu o gelo e o dilúvio chegarem, e embaralharem os testemunhos antigos.

O bichano estaca setecentos milhões de anos atrás, quando a Chapada se acalmou em termos geológicos, sem ter companhia para trocar ideias: na época, a vida se resumia a simples algas. Felinos ainda não existiam nem em sonho. Com esforço, ele se teletransporta ao alto do Morro do Castelo e, lá de cima, descortina a vista que jamais o cansa: enxerga as eras estratificadas, pensa em cada uma delas. Surpreende-se com a longevidade do planeta e a própria. Sabe que a Terra acabará engolindo-o de volta. Questão de tempo. Mas quem já viveu tanto não tem mais essas preocupações comezinhas.

Com o mesmo sorriso de seu famoso parente de Cheshire, o gato de Lençóis se diverte com a presunção de muitos felinos que acreditam ter sido o mundo feito exclusivamente para eles, através do toque da varinha mágica do Grande Gato Criador. Escuta na velha eletrola da casa o refrão “o sertão vai virar, o mar vai virar sertão”, balança a cabeça em concordância, mas sabe que não estará aqui para o próximo round do dilúvio. Tampouco sua espécie.

Coço-lhe a cabeça atrás das orelhas, ele se derrete ainda mais no parapeito, estica as patas, eriça o pelo, ronrona. Com preguiça, abre os olhos. Só então descubro que é cego.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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