O Diabo Veste Prada (por Vera Helena Castanho)

Momento de alguma descontração. “O Diabo Veste Prada 2” permanece atual. Entre a leveza da cena e o [...]

Momento de alguma descontração. “O Diabo Veste Prada 2” permanece atual. Entre a leveza da cena e o charme cinematográfico, emergem leituras sutis que dialogam com o cotidiano corporativo, onde a sofisticação visível convive com exigências silenciosas que não aparecem no roteiro.

Muitos assistem como entretenimento.
Mas há algo ali que insiste em permanecer.

Não se trata de moda.
Nem de estilo.
Muito menos de uma chefe difícil.

Trata-se de ambientes que recompensam desempenho elevado e, ao mesmo tempo, testam silenciosamente os limites internos de quem permanece neles.
Punem sensibilidades.

Andrea entra insegura, deslocada, “fora do padrão” da cultura interna informal.
Como tantos profissionais talentosos entram em estruturas corporativas brilhantes por fora e duras por dentro.

No início, acredita que precisa apenas aprender.

Ao longo do percurso, aprende códigos, ajusta comportamento, refina presença.
Percebe que, para pertencer, talvez precise se afastar de si mesma.

E cresce por fora.

É aí que o filme permanece atual.

Surge uma pergunta quase invisível: o que se perde enquanto se avança?

Há trajetórias que acumulam conquistas e, ao mesmo tempo, produzem afastamento de si.

Ganha-se reconhecimento.
Perdem-se espontaneidade e vínculos.

Ganha-se status.
Perde-se tempo.

Ganha-se acesso.
Perde-se, por vezes, a saúde e a própria medida.

Não se trata de uma crítica simplista ao mundo corporativo.

Mas de reconhecer que nem todo ambiente sofisticado sustenta, de fato, a integridade de quem o ocupa.

E que maturidade profissional talvez não seja apenas saber chegar.

É saber avaliar para lidar ou não com o custo de permanecer.

Há momentos em que crescer deixa de ser subir.

Passa a ser escolher.

Escolher o que permanece.
E, principalmente, o que já não se sustenta mais.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas até onde se pode ir.

Mas em que condições vale a pena continuar.

Nem todo topo sustenta a alma de quem chegou até lá.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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