Como a Linguagem Desumaniza os Imigrantes (por Jessica Gabrielzyk)

Às vezes basta uma fila de supermercado, o sotaque preso entre duas línguas, para lembrar que pertenço [...]

Às vezes basta uma fila de supermercado, o sotaque preso entre duas línguas, para lembrar que pertenço e, ao mesmo tempo, não pertenço. Mesmo quando o comentário soa elogioso — “os imigrantes são trabalhadores” — ele ainda separa. A verdade é mais confusa, mais viva. Somos pessoas cansadas, esperançosas, curiosas, apaixonadas tentando descobrir o que significa pertencer.

Como escritora e imigrante, conheço o peso de ser incluída em um “vocês” dito no plural.
E a ciência explica por quê isso dói tanto.

Um estudo publicado no British Journal of Psychology revelou: a forma como usamos as palavras muda o quanto conseguimos sentir pelos outros. Quando um texto descreve alguém com verbos ligados à mente, como acreditar, sentir ou desejar, o leitor tende a enxergar essa pessoa como mais humana. Quando a linguagem se limita às ações, a pessoa desaparece da frase.

Essa escolha — um verbo, uma frase — define quem é percebido como pessoa e quem se transforma em problema.

Em um momento em que o discurso sobre fronteiras volta a endurecer em várias partes do mundo, isso importa mais do que nunca.

Na mídia, nas campanhas políticas e nas conversas de esquina, “imigrante” virou uma categoria pesada, quase abstrata. Quando o noticiário resume vidas inteiras a fluxos migratórios ou estatísticas de fronteira, desaparece o óbvio: que cada um deles estava com medo.

Pesquisadores chamam isso de anti-social learning, o aprendizado inconsciente de ver o outro sem interioridade. Quando paramos de usar palavras que expressem pensamento ou emoção, passamos a enxergar grupos inteiros como corpos sem mente. Assim começa a desumanização. Não com gritos, mas com silêncio.

Por trás do substantivo “imigrante” existe uma mãe filipina que envia parte do salário para os filhos em Manila. Um engenheiro sírio tenta aprender português enquanto recomeça a vida em um apartamento pequeno, cheio de coisas que ainda não sabe onde colocar. Um menino boliviano desenha o mapa da nova cidade para conseguir chegar sozinho à escola.

Essas histórias raramente chegam às manchetes. Em seu lugar, aparecem números e verbos frios: entraram, chegaram, foram deportados.

Escolher palavras diferentes é um ato político. Um jornalista que mostra o rosto antes do número já está fazendo algo diferente. Um professor que lembra aos alunos que todo “eles” contém um “eu” também. Governos que comunicam políticas migratórias reconhecendo sujeitos, não apenas categorias, estão fazendo o mesmo.

A forma como falamos sobre imigrantes diz o que pensamos deles. E o que pensamos de nós mesmos.

Empatia não é uma abstração. Ela começa quando deixamos de dizer “os imigrantes” e passamos a dizer “as pessoas que migraram”.

Toda vez que nomeamos alguém sem reconhecer sua mente, perdemos um pouco da nossa.

Jessica Gabrielzyk é autora de Parenting Unpacked: Parenting Through the Loss of Self, Maternity Abroad: Becoming a Mother in a Foreign Land e My First American Coloring Book: Everyday Life in the U.S. for Little Hands. Brasileira, vive na Suíça e escreve sobre migração, identidade e parentalidade. Membro da SiETAR — Society for Intercultural Education, Training and Research.

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