
Minha cara amiga,
Hoje, quando tomava banho, por volta das seis horas da manhã, debaixo do chuveiro, tive uma ótima recordação. O dia estava bastante frio e a vontade era ficar sob aquela água com uma temperatura deliciosa, quando o rádio propagou para aquele ambiente, uma música lindíssima e que há muito tempo eu não ouvia.
Faça um esforço mental e ouça comigo:
“Eu nunca sonhei com você
nunca fui ao cinema
não gosto de chope
não vou a Ipanema
não gosto de chuva
nem gosto de sol
e quando…”
Morou na filosofia?
Esta cena matinal quase me colocou fora da outra pois, durante todo o dia, a música não saía da minha cabeça. A tal da produtividade foi quase a zero em contrapartida ao bem estar que passei o dia inteiro e começo da noite, quando senti a necessidade de comunicar-me com você – fazendo questão que fosse através desta carta, em detrimento da tecnologia reinante – que foi testemunha dos tempos saudáveis que nossa turma usufruiu aqui em Belo Horizonte, por longa data.
Lembra do bar do Valtinho onde os músicos de plantão, que lá frequentavam, disputavam espaço até de madrugada para mostrar as novidades, em primeira mão? E era só coisa boa: Paulinho da Viola, João Bosco, João Nogueira, Sá e Guarabyra, César Costa Filho, os Mineiros do Clube da Esquina e outras feras que eram interpretados lindamente para deleite da moçada.
Depois do bar, Fino da Roça, saíamos a pé, numa espécie de procissão, rumo ao Savassinuca, que nunca fechava, para encerrarmos, de forma brilhante, as emoções boêmias. Você se lembra?
Atualmente não há mais o Fino da Roça, o Savassinuca e nem o Bar do Lulu. Tampouco pode- se andar pelas ruas da cidade, de madrugada, ainda que de “patota”, como no nosso tempo.
Lígia, tenho sempre boas notícias suas e sei que você está muito feliz por aí, ainda bem!
Espero ter despertado em você o sentimento da saudade, palavra que, dizem, só tem correspondência na língua portuguesa. Falam que ela veio dos nossos ancestrais africanos, quando foram trazidos para essas terras e aqui sentiam o “banzo”, que era a saudade dos familiares e amigos que ficaram em suas origens.
Veja que coisa maravilhosa eles trouxeram para cá, além da música, culinária, dança e outras boas heranças. Somos os únicos povos que cultivamos esse sentimento que, às vezes, torna-se lindo, apesar de ter lhes custado muito caro. Viva os negros e abaixo o racismo e os racistas!
Em tempo, ainda estou sóbrio, não bebi nadinha até agora, tá muito cedo!
Sei que poderia ficar horas e horas recordando daquela turma maravilhosa que anda dispersa. Alguns já em definitivo, mas de ricas e gostosas lembranças. Éramos felizes e sabíamos, apesar de alguns pesares da época.
Quando você vier por estas bandas, espero que me procure pois ainda há tempo e hora de fazermos aquele roteiro: Santa Tereza, Mercado Central, Macacos e seus botecos, além da Serra do Cipó, Milho Verde, Diamantina e Ouro Preto… Você se recorda daquele memorável Festival de Inverno?
Enfim, mesmo sabendo de sua feliz e confortável adaptação por aí, reforço o convite para um passeio por nossa terra, ainda mais depois daquela teoria do Tom Jobim, em relação à vida que se leva nos países do exterior, quando ele dizia:
− “Lá é bom mas não presta, aqui não presta mas é ótimo”.
E aqui ainda há chance de ficar ótimo, digo eu!
Um grande abraço, extensivos a Liginha, João, Maria e os meninos do outro casamento que ainda não conheço.
PS – Dei muita sorte por ter ouvido a música que me inspirou em escrevê–la, pois com raríssimas exceções, de uns tempos para cá, o “lixo musical” invadiu as rádios, tvs , festas, ruas… .
Ainda bem que você anda longe dessa poluição que assola nossos ouvidos e, que, em outras épocas foram muito bem tratados e espero que voltem a ser,
Beijos, minha querida!
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista



