Velhos tempos (por Lindolfo Paoliello)

era o homem do MME para serviços solitários, perigosos e difíceis [...]

O diretor da repartição chegou ao escritório pelo caminho que diariamente seguia, cumprimentou as mesmas pessoas, na hora de sempre, pendurou o paletó no cabide, sentou-se e leu o ofício que estava no alto da pilha.

O ofício era datado de 6 de janeiro de 1974 e dirigido a ele, Dr. Hilário Romero. Leu o documento com a distração de quem começa um dia que preferiria já ver encerrado, até que deu com a frase “a fim de que se digne processar a devolução oficial que agora faço…” Leu o ofício, duas, três vezes, e então o Dr. Hilário Romero, diretor do SCAF, órgão do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica, chamou o chefe de gabinete e ordenou: “Passe este telegrama. Agora”.

Quando o telegrama chegou a Ponte Nova, Minas Gerais, o destinatário, engenheiro Reinaldo Alves Costa Filho, não estava. Tinha ido para Raul Soares, uma cidade próxima, onde estava instalando a empresa de energia elétrica local. Ele havia feito isto em várias cidades da Zona da Mata de Minas Gerais e havia também demarcado fronteiras nos Estados do Norte, era o homem do MME para serviços solitários, perigosos e difíceis, esclarecendo-se que MME era o Ministério das Minas e Energia.

Quando recebeu o telegrama, que sua esposa mandou levar de jipe tão logo tomou conhecimento, Reinaldinho, um homenzarrão de 1 metro e 90 sentou-se à beira do rio onde trabalhava com seus peões e lembrou-se da longa história que um telegrama encerrava em quatro palavras.

Lembrou-se da sua chegada à Venezuela, para uma missão de colaboração entre os governos brasileiro e o daquele país e da lembrança dos seus oito filhos menores quando chegou diante do teco-teco que o levaria para sobrevoar a selva. Diante de funcionários atônitos pegou de volta a mala, comprou por 432 cruzeiros passagens das três empresas que o trariam de volta, a Panam, Aeropostal e Avensa. No dia 07/11/1973 desligou-se da delegação, como constou do ofício que endereçou ao Dr. Romero.

E do ofício também constou que durante três meses ele, engenheiro nível 0020, do DNAE do MME tentou, pessoalmente, por telefone e através de ofícios, devolver ao governo CR$751,20, referentes ao valor de diárias que havia recebido da sua repartição. E como não conseguiu, de forma alguma “obter instruções sobre como fazer a restituição” apelava para sua Excelência, o diretor do SCAF, sigla que a história não traduziu.

Em tempo: o telegrama do Dr. Romero dizia: “Valor restituído. Meus cumprimentos”.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das Gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.

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