Será que há autoridade sem a liturgia do cargo? Que lições podemos tirar do papado à carreira militar (por Luiz Alberto Cureau Júnior)

Há algo em comum entre o silêncio solene da Santa Sé e o passo firme de uma tropa em formatura, a [...]


Há algo em comum entre o silêncio solene da Santa Sé e o passo firme de uma tropa em formatura, a liturgia. No papado, cada gesto do Papa e de seus cardeais não é improviso, é tradição consolidada ao longo de séculos, pensada para dar estabilidade, previsibilidade e autoridade moral à instituição. Na profissão militar, não é diferente, ou pelo menos não deveria ser.

A liturgia do cargo é, antes de tudo, um compromisso com algo maior que o indivíduo. Uniformes, guarda do quartel, protocolos, continências, cadeia de comando, ritos de passagem, tudo isso pode parecer, aos olhos apressados de hoje, mera formalidade, mas não é, é linguagem, é coesão, é identidade, e, sobretudo, é disciplina institucionalizada.

Quando fui promovido a general, não houve espaço para romantismo. Naquele instante, ficou claro que os alguns bônus existiam, respeito, posição, capacidade de decisão, mas vinham acompanhados de um ônus muito mais pesado, responsabilidade ampliada, vigilância constante e a obrigação de ser exemplo em tempo integral. Fui promovido em plena pandemia, e ali a liturgia deixou de ser simbólica para se tornar operacional. Cada decisão carregava consequências reais, muitas vezes irreversíveis.

No papado, um erro litúrgico pode parecer pequeno, mas pode gerar ruído institucional. No meio militar, o afastamento da liturgia pode custar muito mais, quebra de hierarquia, perda de confiança e, em casos extremos, vidas. A tradição não está ali por apego ao passado, está porque foi testada sob pressão.

Vivemos uma época que valoriza a flexibilização de tudo, conceitos, valores, ritos. Há quem veja nisso evolução. Eu vejo com cautela. Quando se dilui demais a liturgia, corre-se o risco de diluir também a autoridade. E autoridade, sem forma, não lidera, na maioria das vezes, improvisa.

Isso vale para militares, mas também para juízes, políticos, advogados, policiais e outras profissões que tem na liturgia seu “modus operandi”. Cada uma dessas profissões carrega um conjunto de ritos e condutas que não são acessórios, são estruturais. Ignorá-los pode até trazer ganhos imediatos, uma sensação de modernidade ou proximidade. Mas, no médio prazo, cobra-se a conta em forma de desordem, descrédito e perda de referência.

A liturgia do cargo não é sobre rigidez cega. É sobre saber quando manter a forma para preservar o conteúdo. Quem ocupa funções de autoridade precisa entender isso cedo, ou aprender da forma mais difícil.

Porque, no fim, o cargo passa. A instituição fica. E é a liturgia que garante que ela continue de pé.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático

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