
Minha perspectiva não é a de um especialista em educação, mas a de um ex-aluno de escola pública que encontrou na filosofia e na teoria dos jogos uma forma de pensar decisões.
Para muita gente, falar de ‘projeto de vida’ parece algo estritamente individual, como se cada pessoa pudesse decidir seu futuro apenas olhando para dentro de si. Mas nossas escolhas dependem, o tempo todo, de como outras pessoas — família, amigos, colegas — agem, esperam e reagem.
A disciplina Projeto de Vida, inovação curricular brasileira presente no ensino médio integral desde 2022, parte de uma ambição elevada: formar jovens autônomos, capazes de articular dimensões pessoais, sociais e profissionais. É uma proposta exigente e ainda enfrenta novos desafios.
Em entrevista recente (Brasil 247, 03/04/2026), o economista Márcio Pochmann (presidente do IBGE) destacou a crescente dificuldade dos jovens brasileiros em confiar no futuro. Com menos sinais de mobilidade social, pressão digital e maior incerteza, o amanhã perde nitidez em uma espécie de ‘miopia do futuro’. Sem essa referência, planejar e cooperar tornam-se tarefas árduas, fazendo os projetos de vida oscilarem entre o improviso e a ansiedade.
A teoria dos jogos e as lógicas de decisão
É nesse ponto que a teoria dos jogos oferece uma contribuição valiosa. Em vez de tratar decisões como escolhas isoladas, ela as entende como parte de um sistema de interações. Projetos de vida passam a ser formas de coordenação com o mundo ao redor.
Muitas decisões funcionam sem acordo prévio, apoiadas em soluções que parecem naturalmente óbvias — os ‘pontos focais’. Outras se sustentam porque continuam fazendo sentido mesmo quando mudamos de perspectiva — as ‘invariâncias’. Projetos de vida consistentes combinam esses dois elementos: coordenação com o mundo e coerência consigo mesmo.
Na prática, usamos diferentes lógicas de decisão. Às vezes calculamos custos e benefícios; em outras, paramos quando encontramos algo ‘bom o suficiente’. Também recorremos a atalhos mentais e, em casos mais raros, seguimos valores que permanecem estáveis mesmo quando o cenário muda.
Aprender a decidir é, em parte, reconhecer qual dessas lógicas está em jogo.
Ilustramos, a seguir, como a teoria dos jogos pode contribuir em cada uma das três dimensões dos projetos de vida: autoconhecimento, vida em sociedade e mundo do trabalho.
Autoconhecimento (dimensão pessoal)
O primeiro tipo de jogo acontece dentro de nós: o conflito entre o ‘eu de agora’ e o ‘eu do futuro’. O primeiro busca recompensas imediatas; o segundo, resultados duradouros.
Decidir bem não é eliminar esse conflito, mas organizá-lo, criando rotinas e compromissos que façam esses dois ‘eus’ cooperarem. Muitas escolhas não exigem perfeição, apenas algo suficientemente bom; outras são distorcidas por atalhos mentais.
Há também decisões sob incerteza pessoal: até que ponto podemos confiar em nossas próprias previsões? O problema de Newcomb (citado em artigos anteriores em Capa Brasil) questiona nossa capacidade de prever o próprio comportamento, ajudando a compreender por que falhamos em promessas que fazemos a nós mesmos.
Por outro lado, é preciso cuidado com decisões baseadas apenas em atalhos mentais: seguir o caminho de um conhecido ou repetir histórias de sucesso pode simplificar o processo, mas também esconder riscos.
Em Clube da Luta (Fight Club, 1999), esse conflito aparece de forma extrema: dois ‘eus’ disputam a mesma vida. A metáfora é exagerada, mas o dilema é real.
Vida em sociedade (dimensão social)
O segundo jogo é coletivo. Muitas situações envolvem dilemas entre cooperação e interesse individual: cooperar sustenta confiança, mas exige expectativa mútua.
No clássico dilema do prisioneiro, trair pode trazer vantagem imediata, mas a cooperação sustenta relações de confiança ao longo do tempo.
Frequentemente, conseguimos nos coordenar sem conversar, guiados por soluções que parecem naturais (focal points, de Schelling): formar filas, respeitar turnos, adotar padrões de convivência. Projetos de vida também dependem disso: de reconhecer expectativas e encontrar formas de alinhamento.
Ao mesmo tempo, há limites para essa adaptação. Nem toda coordenação é desejável. Em alguns casos, seguir o grupo significa abrir mão de princípios. Algumas escolhas exigem ‘invariâncias’: valores fundamentais que mantemos estáveis mesmo quando cenários e interlocutores mudam. Isso nos remete ao ‘equilíbrio de Nash’: buscar estratégias onde ninguém ganha se agir de forma isolada, provando que pensar apenas em si mesmo raramente é a melhor saída.
Em Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001), a trajetória de John Nash mostra como estratégias individuais e coletivas se entrelaçam. A lição principal é simples: pensar apenas em si mesmo raramente é a melhor estratégia.
Mundo do trabalho (dimensão profissional)
No campo profissional, as decisões se tornam explicitamente estratégicas. Escolher uma carreira, construir reputação e negociar oportunidades envolve interação contínua com outros.
Carreiras não são decisões únicas, mas sequências de escolhas. Ganhos imediatos que comprometem a confiança tendem a cobrar seu preço. Não basta escolher bem, é preciso ser percebido como alguém confiável.
Algumas decisões seguem cálculo; outras, narrativas. Uma pergunta útil é: que história você gostaria de contar sobre sua trajetória? Em certos casos, essa ‘melhor notícia possível’ justifica riscos que o cálculo evitaria.
Em O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013), vemos o extremo oposto: ganhos rápidos que corroem a confiança e inviabilizam o próprio jogo.
Por que isso é importante no Projeto de Vida?
Pensar o projeto de vida como um jogo significa reconhecer que decidir bem envolve lidar, ao mesmo tempo, com incerteza, com os outros e consigo mesmo.
Em um contexto em que o futuro parece menos promissor, essa tarefa se torna mais difícil, e mais necessária. Entre impulsos e planos, cada escolha precisa cumprir duas condições: fazer sentido para os outros e continuar fazendo sentido para si mesmo.
Diante da miopia do futuro presente em nossa sociedade, talvez a única correção possível seja exatamente essa: aprender a decidir sem garantias e, ainda assim, construir alguma direção.
Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG
Ex-aluno do Colégio Estadual Central e Diretor da Aexa – Associação de Ex-Alunos e Amigos da EE Gov. Milton Campos – Belo



