A desmemória de Minas (por J.D. Vital)

A nova avenida Prefeito Newton Cardoso, com 4,5 quilômetros de extensão, prevista para ser entregue à [...]

A nova avenida Prefeito Newton Cardoso, com 4,5 quilômetros de extensão, prevista para ser entregue à população de Contagem no mês de maio, representa um projeto soberbo. De mais de R$ 300 milhões. A primeira fase, um trecho de 2 quilômetros, foi inaugurada em 29 de maio de 2025 com a presença do presidente Lula.

Itamar Franco dá nome a viaduto em Belo Horizonte, no trajeto da PUC, e a avenida em Juiz de Fora com mais de quatro mil metros percorrendo a Manchester da Zona da Mata. O “Programa Boniteza”, executado pela Prefeitura, revitalizou os canteiros centrais da via em homenagem ao ex-prefeito, ex-governador e grande presidente da república.

A caminho de Diamantina, na rota dos diamantes, você se belisca por imaginar-se presa de confusão mental. Há placas para duas cidades com o nome de JK: Presidente Juscelino e Presidente Kubitschek. Uma distante da outra a apenas 80 quilômetros.

Os bons ares da Serra do Espinhaço contam com o Google para aumentar a vertigem. Ambas nasceram como municípios no mesmo dia, no mesmo mês e no mesmo ano: 30 de dezembro de 1962.

Quase empatam em população. Presidente Juscelino, com 3.465 habitantes segundo o censo de 2022, ganha raspando da concorrente de 3.071 moradores. A primeira, distrito de Ponte do Paraúna, pertencia a Curvelo. A segunda deixou de ser Pouso Alto de Diamantina para louvar o Presidente Bossa Nova.

Às vezes, mudar de nome aquece, aos píncaros, a temperatura de Minas, embora os mineiros sejam reconhecidos por sua placidez evangélica. Ainda em 1962, os munícipes renegaram suas nascenças contemporâneas dos bandeirantes Fernão Dias Paes Leme e João Leite da Silva Ortiz, quando se emanciparam de Matozinhos. Em ambiente de concórdia e tolerância.

A colonial Lagoa do Cercado, onde se amansavam bois, foi rebatizada como Prudente de Morais, primeiro presidente civil do Brasil, que nem mineiro era. Tal e qual os baianos Itamar e Newton.

Prudente José de Moraes Barros provém de Itu, no estado de São Paulo. Na sua gestão, tropas do Exército esmagaram os seguidores esfarrapados de Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos, nos sertões da Bahia.

No caso de Calambau, na região barroca do Mestre de Piranga, a pachorra dos mineiros ficou desmentida. O povoado descabelou-se. Ameaçaram retirar do fundo das arcas de couro malhado as clavinas e arcabuzes em desuso.

O deputado federal Padre Pedro Maciel Vidigal, do PSD, repudiou a mudança para Presidente Bernardes, em honra a Arthur da Silva Bernardes, do Partido Republicano Mineiro.

O austero cacique, originário de Viçosa, comandou o pais de 1922 a 1926, em estado de sítio. Naqueles tempos, explodiram movimentos tenentistas que resultaram na Coluna Prestes, chefiada por Luiz Carlos Prestes do Partido Comunista Brasileiro.

Já conseguiram reverter o decreto que alterou, à força, o topônimo histórico. Calambau voltou a luzir como o Calambau, que significa, na linguagem dos índios Carijós, lugar de mato ralo onde o rio Piranga faz a curva.

A algazarra durou pouco. Logo, um novo prefeito revogou o ato da oposição e Presidente Bernardes recaiu na beligerância. O Arquivo Público Mineiro conserva panfletos e volantes sobre a guerra local, desde a década de 1950.

Outros presidentes mineiros, como denominavam-se os governadores de estado, saíram-se melhor na renomeação dos arraiais, principalmente aqueles que apoiaram a Revolução de 1930 e a ascensão do caudilho gaúcho Getúlio Vargas ao Palácio do Catete.

Olegário Maciel (1855-1933), natural de Bom Despacho, estudou humanidades no Colégio do Caraça e engenharia na Politécnica do Rio de Janeiro. Governou de agosto a dezembro de 1924. Reelegeu-se em 7 de setembro de 1930 e exerceu o poder até 5 de setembro 1933, data de sua morte. Dizem que na banheira do Palácio da Liberdade, às 8:55 da manhã, de ataque cardíaco. Nunca se casou, tinha 78 anos de idade.

Para assustar os intrometidos e desencorajar aventuras noturnas, a zeladora Conceição Piló espalhava uma candonga aterrorizante. Ela era, como os gansos do Capitólio, uma guardiã indomada do prédio inaugurado em 1897. De madrugada, segundo Piló, ouviam-se os chinelos do solteirão subindo e descendo as escadarias de ferro fundido, produzidas pela Acière Bruges e importadas da Bélgica.

Em 1938 passaram a chamar de Presidente Olegário o distrito de Santa Rita de Patos, ex-Santa Rita da Boa Sorte, sob a influência de Patos de Minas, capital do milho.

Não se esperou a morte de Benedito Valadares para glorificá-lo. Em 1938, Minas Gerais assistiu ao batizado da progressista Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, em substituição ao território de Figueiras, então a salvo de rompimentos das barragens da mineração.

Antes de Valadares, surgiu em 1925 a cidade de João Pinheiro, antiga Santana dos Alegres, desmembrada de Paracatu, reduto dos Melo Franco. Em memória do governador João Pinheiro da Silva, nativo do Serro, de ideias revolucionárias na administração pública. Ele morreu aos 47 anos de idade, em 1908, no meio do mandato.

Outros governantes mineiros foram lembrados para nominar localidades ou logradouros. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada titulou a freguesia plantada na Serra da Mantiqueira, onde ele e o marechal Henrique Dufles Teixeira Lott vieram ao mundo. O representante do clã Andrada tornou-se ainda avenida movimentada em Belo Horizonte, de onde foi prefeito, e sede de prefeitura no estado de Santa Catarina.

Bias Fortes, Afonso Pena, Delfim Moreira, Raul Soares, Francisco Salles, Augusto de Lima, Venceslau Brás, Milton Campos, Aureliano Chaves, Francelino Pereira, Ozanan Coelho, Israel Pinheiro, Rondon Pacheco, Magalhães Pinto e Tancredo Neves também escalaram os degraus do reconhecimento público.

Exceto um.

O governador Hélio Garcia.

Tancredo Neves pinçou-o para companheiro na fundação do PP – Partido Popular e depois para a chapa vitoriosa do PMDB nas eleições estaduais de 1982, em processo copiado por Lula com os vices José Alencar e Geraldo Alckmin, no milagre de misturar óleo e água. Hélio Garcia (1931-2016) cultivava a análise minuciosa do quadro político como ferramenta de ação governamental.

Pensava.

Passava noites volteando a sala do segundo andar do Palácio das Mangabeiras. Até sulcar o tapete. À procura de soluções que viabilizassem a candidatura de Tancredo Neves à presidência da Nova República, para a reconciliação nacional e a salvação de Minas, depauperada com o esgotamento do ouro. A província agonizava com a economia em letargia, sem indústrias de bens de consumo que gerassem empregos e esvaziada pela fuga dos bancos para São Paulo.

Conseguiu.

Arrancou até mesmo o voto do seu mentor e padrinho político na juventude, o senador Magalhães Pinto, da ex-UDN. O banqueiro e homem público sagaz ajudou a sepultar a ditadura militar que pariu: votou em Tancredo, do ex-PSD, adversário sempiterno dos udenistas, contra o candidato do regime, o deputado federal paulista Paulo Maluf.

Democrata, intolerantemente democrata, Hélio Garcia não se irritava quando Millôr Fernandes zombava dele em charges engraçadíssimas no Jornal do Brasil, chamando-o de Dojão – o carrão Dodge Dart bonito, potente, pesando 1,5 tonelada, que bebia muito e ocupava duas vagas, em alusão aos cargos de prefeito de BH e de vice-governador que acumulava.

Divertia-se em conversas com os secretários Roberto Brant, da Fazenda, Walfrido dos Mares Guia, da Educação, Washington Melo, da Comunicação, e Evandro de Pádua Abreu, super-secretário.

Lembrava que seus correligionários da UDN debochavam de Benedito Valadares, a ponto de dizerem que o governador teria feito brotar um pé de cana no jardim do Palácio da Liberdade. De tanto cuspir da sacada monumental.

“Bobajada” – dizia-me. “Benedito, diferente de mim, era abstêmio”.

Desprovido, como JK, do sentimento do ódio, Hélio Garcia atende ao telefone Hélio Fernandes, dono da Tribuna da Imprensa, irmão caçula de Millôr. Manda dar ao jornal o mesmo tratamento publicitário dispensado ao Jornal do Brasil e a O Globo.

Viaja secretamente a Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, no Ceará. Quer dobrar um voto nordestino hesitante no colégio eleitoral. Em Brasília, fecha com a revista “Veja” um acordo para fornecer, em primeira mão, notícias de Tancredo. Em troca de boa cobertura jornalística.

Nomeia o jornalista e escritor Roberto Drummond seu assessor cultural. Extingue a prerrogativa medieval dos políticos de indicarem diretoras das escolas. Institui a eleição direta dos novos gestores nas unidades estaduais, com a assessoria dos irmãos Mares Guia, Walfrido e João Batista.

A morte inesperada de Tancredo Neves comoveu a nação. Cumulou-o de rapapés país afora, com seu nome cravado em centenas de endereços. Para Minas, foi uma tragédia. Avistamos, mas não entramos na Terra Prometida.

Prefeito da capital, duas vezes governador de Minas, articulador da pacificação após a ditadura militar, onde está Hélio Garcia que não vejo nos mapas geográficos?

Com a assistência de Lucas Garcia, neto e herdeiro político, descobri que em Santo Antônio do Amparo, berço da família, puseram seu nome no ginásio municipal poliesportivo. Em Barroso, há uma rua Hélio Garcia. No bairro Josefina Coelho de Souza.

E só.

J.D. Vital foi chefe da Assessoria de Imprensa e Relações Públicas do Estado de Minas Gerais nos governos Tancredo Neves e Hélio Garcia. É signatário do manifesto pelo resgate da Associação Mineira de Imprensa – AMI.

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