Nacionalização x Estadualização no Nordeste (por Adriano Oliveira)

Pode parecer repetitivo, mas é necessário reiterar as lacunas das pesquisas quantitativas quando [...]

Pode parecer repetitivo, mas é necessário reiterar as lacunas das pesquisas quantitativas quando analisamos os achados das pesquisas realizadas pela Cenário Inteligência. O tema de hoje trata da subjetividade que a pesquisa qualitativa consegue captar no que diz respeito à dinâmica das eleições deste ano. A polarização está presente nas eleições nacionais? Sim, é inevitável. No entanto, ela não se manifesta da mesma forma nas eleições para governador.

Vejamos alguns exemplos para contextualizar. Entrevistamos uma senhora de 45 anos, moradora de Condado, Pernambuco. Seu discurso era favorável à governadora: “Ela tá trabalhando demais por aqui”. Também apoiava Lula: “Ele é o melhor presidente. Trabalha pelos pobres”. Ao perguntarmos se o apoio de Lula ou Bolsonaro influenciava seu voto para governador, ela respondeu: “Não, eu voto em quem eu achar que tá trabalhando pra minha cidade”. Outro exemplo, em uma cidade do Ceará: “O governador é mais ou menos, mas é a continuidade de Camilo”. No Maranhão: “Voto no governador, ele tem se dedicado aos municípios”. Por fim: “O prefeito de João Pessoa trabalha muito, merece ser governador”.

Empiricamente, a situação está posta. Percebemos que nacionalizar a disputa não é uma estratégia que favoreça, de forma decisiva, candidatos a governador. O eleitor está preocupado com a estrada esburacada, com a cirurgia que conseguiu realizar, com a disponibilidade de remédios, com a presença de médicos especializados, com o fardamento e o material escolar. Está atento à segurança pública e ao cumprimento das promessas de campanha. Conclusão: governadores bem avaliados tendem a ser reeleitos, como historicamente ocorre.

As pesquisas da Cenário Inteligência, sejam estaduais ou municipais, incluem uma pergunta-chave: Lula ou Bolsonaro influenciam o seu voto para governador? Majoritariamente, a resposta é negativa. Estamos, portanto, diante de mais uma evidência de que o que predomina na eleição estadual é a estadualização, e não a nacionalização. É claro que ser candidato apoiado por Jair Bolsonaro pode gerar rejeição. Mas o mesmo ocorre com candidatos associados a Lula — ainda que, em geral, a rejeição ao atual presidente seja menor do que a do ex-presidente.

O presidente Lula precisa manter ou ampliar sua votação no Nordeste diante de uma disputa nacional acirrada. Nesse contexto, a estratégia mais eficiente é buscar o apoio — ou ao menos a neutralidade — de governadores bem avaliados, independentemente de partido. Naturalmente, Lula participará das campanhas de candidatos do PT: estará com Elmano de Freitas, no Ceará; Rafael Fonteles, no Piauí; Jerônimo Rodrigues, na Bahia; e Cadu Xavier, no Rio Grande do Norte.

Já em estados como Pernambuco, Paraíba, Maranhão e Sergipe, a estratégia tende a ser a neutralidade. A lógica é simples: não há racionalidade em estimular cenários nos quais governadores ou candidatos competitivos peçam votos contra o presidente — nem o contrário — em estados nordestinos. Em Alagoas, diante da presença de um candidato alinhado ao bolsonarismo e da relação política com a família Calheiros, Lula deverá apoiar o ex-ministro dos Transportes, Renan Filho.

Um ponto adicional: é pouco provável que Lula não seja candidato à Presidência da República. No entanto, caso esse cenário improvável se concretize, como ficarão os candidatos aos governos estaduais — sejam do PT ou não — cuja estratégia se baseia exclusivamente no lulismo? A estratégia ideal para governadores candidatos à reeleição é clara: mostrar resultados concretos e projetar o futuro. Já para candidatos de oposição, o caminho é desconstruir a imagem do incumbente e apresentar alternativas viáveis.

Ainda assim, vale reiterar: governadores bem avaliados tendem a ser reeleitos.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia. Coautora: Maria Eduarda Oliveira é Graduanda em Ciência Política. Pesquisadora da Cenário Inteligência.

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