Entre o vivido, o compreendido, o elaborado (por Vera Helena Castanho)

Os acontecimentos do nosso tempo nos colocam diante de inquietações cada vez mais presentes [...]

Os atravessamentos da vida

Os acontecimentos do nosso tempo nos colocam diante de inquietações cada vez mais presente: quanto daquilo que vivemos conseguimos compreender?

Estamos às vésperas de uma eleição presidencial que definirá os rumos do Brasil pelos próximos quatro anos. Um país que acumula experiências históricas, transformações políticas, conquistas e contradições encontra-se novamente diante de escolhas que ultrapassam preferências individuais e alcançam o futuro de toda uma sociedade.

Nesse contexto, acompanhamos um debate entre candidatos à Presidência marcado por confrontos e acusações, em que a disputa ocupou o espaço que poderia ter sido dedicado ao aprofundamento de propostas e à discussão dos grandes desafios nacionais.

Mais do que avaliar o desempenho dos candidatos, cabe refletir sobre a qualidade do diálogo público e sobre nossa própria capacidade de discernimento diante de decisões tão importantes.

Em outra parte do mundo, conflitos, guerras e tensões sociais e políticas continuam expondo a fragilidade da convivência humana. Na França, nos últimos dias, em meio a uma onda de manifestações e episódios de violência, o histórico edifício da prefeitura de Limoges, que havia sobrevivido a duas guerras mundiais, foi gravemente destruído por um incêndio.

A imagem de um patrimônio preservado por gerações, devastado em poucas horas, nos confronta com uma contradição inquietante: a humanidade é capaz de construir, preservar e transmitir extraordinários legados, mas também de destruir, em seus próprios conflitos, aquilo que levou tanto tempo para conquistar.

São acontecimentos distintos, com histórias e circunstâncias próprias, mas que provocam uma pergunta comum: o que fazemos, individual e coletivamente, com a experiência que a história nos oferece?

Nem toda experiência produz imediatamente consciência. Algumas nos transformam antes mesmo que possamos reconhecer o que mudou. Outras permanecem conosco durante anos, adquirindo novos significados à medida que a própria vida amplia nossa capacidade de interpretação.

Somos atravessados por encontros, perdas, escolhas, rupturas, conquistas e acontecimentos que nem sempre controlamos. Mas não somos apenas o resultado daquilo que nos acontece. Somos também aquilo que conseguimos elaborar, questionar e reconstruir a partir dessas experiências.

A maturidade não está em encontrar explicações para tudo, mas em desenvolver a capacidade de reconhecer a complexidade da própria história e do mundo, inclusive suas contradições.

Em tempos de posições tão polarizadas, preservar a capacidade de pensar, escutar e discernir é especialmente importante. Não se trata de renunciar às próprias convicções, mas de reconhecer que convicção não dispensa reflexão, assim como indignação não substitui compreensão.

Faço parte de uma geração que acompanhou a Guerra do Vietnã, viu em Woodstock a expressão de uma juventude que questionava valores estabelecidos e testemunhou profundas transformações culturais, sociais e políticas.

No Brasil, acompanhamos a transformação de um país frequentemente identificado por suas limitações de desenvolvimento em uma nação de maior presença internacional, reconhecida por seu potencial econômico, ambiental, energético e humano, ainda que marcada por profundas desigualdades e desafios estruturais.

Vivemos conquistas, rupturas e mudanças que alteraram nossa maneira de compreender o mundo. Aprendemos também que o progresso não é linear, que as conquistas não são definitivas e que nenhuma geração detém respostas suficientes para os desafios de seu tempo.

Uma das maiores lições de quem atravessou tantas transformações é reconhecer que a experiência acumulada, por si só, não assegura sabedoria. É preciso continuar aprendendo, questionando e, sobretudo, elaborando aquilo que vivemos.

A experiência nos oferece memória. A elaboração nos permite construir discernimento. Mas é nas escolhas que revelamos o que efetivamente compreendemos e priorizamos.

Ao reunir essas reflexões, reconheço que um dos grandes desafios do século XXI é desenvolver uma consciência capaz de olhar além dos interesses imediatos, compreender a complexidade do mundo e sustentar posicionamentos com lucidez e coragem.

Uma consciência que não se confunda com a simples defesa de convicções, mas que nos permita questionar e perceber as consequências de nossas atitudes. Porque também somos responsáveis por aquilo que legitimamos, reproduzimos ou deixamos de questionar.

Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer que nossas escolhas individuais participam da construção da vida coletiva.

Entre o vivido e o compreendido, existe uma vida inteira em constante elaboração. E é na consciência desenvolvida que encontramos a possibilidade de construir o futuro que compartilhamos para nós e para todos nós.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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