
À procura do jornal Estado de Minas, saí por Belo Horizonte afora. Sábado de luz, estreia de agosto.
Topei com bancas fechadas. Enferrujadas. Abandonadas na rua como carros velhos sucateados. Canibalizadas. De portas arrancadas e esqueletos à mostra, em ambientes onde prosperam criadouros de mosquitos da dengue e ninhos de ratazanas.
Rodei. De carro e a pé.
As bancas não vendem mais jornal. Nem revistas. Elas se converteram em bazares de quinquilharias, “de água mineral, refrigerante, acessórios para celulares” a outras bizarrices. Como “cigarros, chinelos, chaveiros, cortadores de unha e pentes”, conforme li, mais na tarde, no belo texto de Romerson Cangussu publicado na Revista Matéria Prima, editada pelo jornalista veterano Durval Guimarães.
Na Savassi, antiga capital da leitura, percorro os quarteirões fechados na esperança de achar um exemplar de jornal impresso.
Faltou-me apenas a lanterna na mão para sofrer a acusação de plagiar o filósofo Diógenes de Sinope (412 a 323 A.C.). O pensador carregava uma lamparina na luz matinal e fulgurante de Atenas. Quando perguntado, respondia:
“Procuro um homem”.
Diógenes, o Cínico, caçava um homem de verdade. E segundo o ex-seminarista Carlos Heitor Cony, em crônica publicada na Folha de S. Paulo em 5 de novembro de 2017 e republicada no site da Academia Brasileira de Letras, o grego não encontrou “nenhum homem nas ruas e nos lugares públicos”. Eram “todos incompetentes ou corruptos”.
Eu buscava um Estado de Minas, em papel.
Pergunto pelo Estadão, o jornal da família Mesquita, que resistiu à censura da ditadura militar.
“Não recebemos mais” – disseram os donos.
E a Folha e O Globo?
“Também não entregam mais”, explicaram.
Na rua Pernambuco, Bira Macedo, há 18 anos no negócio, só ali na frente do Colégio Santo Antônio, corrige-me quando indago quanto tempo ele passa atualmente sem vender um jornal: “Não há venda. Passam quatro a cinco meses sem alguém procurar por um jornal”.
Vindo de Novo Cruzeiro, no Vale do Jequitinhonha, Bira evoca a década de 1980. “Já cheguei a vender mais de mil jornais, no domingo”. Ele mantinha uma banca no estacionamento do Mercado Central e vendia Estado de Minas, O Globo, Estadão, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo.
O último jornal comercializado na lojinha do Colégio Santo Antônio foi a Folha de S. Paulo. E não se comprava o jornal, mas apenas as coleções que a Folha lançava. Por causa da proximidade com a escola, os pais adquiriam as revistas infantis e desprezavam o restante. “Os jornais encalhavam”.
Ligo para Amauri Colen, dos meus dias de repórter na Sucursal de O Estado de S. Paulo em BH. Amauri chefiava o departamento comercial. Jogava duro com as agências de publicidade. Se elas atrasassem minutos após o horário comercial, ele recusava o fotolito. Não aceitava o anúncio a ser despachado para São Paulo. E não adiantava reclamar com o bispo Dom Serafim.
Amauri, ex-aluno do Colégio Militar de BH, zelava pela pontualidade do serviço na praça mineira. Às primeiras horas da manhã, a Kombi guiada por Valter Celso Rosa percorria a cidade, na tarefa sagrada de distribuir o depositário da informação correta, da verdade, da cultura, da luta pelo fim da ditadura militar e a ressurreição da democracia.
Os leitores disputavam os cadernos de cultura. As análises brasilienses de Carlos Chagas. Os correspondentes internacionais, como o italiano Rocco Morabito e o francês Gilles Lapouge, puxavam o cordão das celebridades em política mundial.
“E pensar que a tiragem do Estadão já chegou à marca diária dos 100 mil e Veja a um milhão de revistas semanais” – pontua Amauri Colen.
A moçada de hoje pode não acreditar. Mas o Estadão dominical, abraçado pelos punhos fortes de Flávio e Lino, nossos colegas de sucursal, circulava tão volumoso, tão recheado de cadernos noticiosos e de centenas de páginas de anúncios, que até me lembrei de uma pilhéria atribuída ao ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda, ponta direita da UDN, quando rompeu com os Mesquitas:
“O Estadão é um jornal que cansa os braços e não ilustra o espírito”.
Diz o Observatório da Imprensa que o jornal impresso agoniza. Deu lugar ao digital. Na edição de número 1384, de 16 de abril deste ano, Anderson Eduardo da Cunha escreve:
“Durante muitos anos, o jornal impresso foi sinônimo de credibilidade, presença e hábito. Era comum vê-lo nas bancas, nas esquinas, nos cafés, nas mãos de quem fazia questão de começar o dia bem informado”.
A circulação de jornais impressos cai pelas tabelas. Em dez anos, o tombo foi de 84,6 por cento, segundo o site Poder360 citando dados do IVC – Instituto Verificador de Comunicação e da PwC.
“O Estadão registrou a maior queda, de 59,9%, recuando de 131.522 para 52.776 exemplares diários”, informa o site. Não há interesse de confiar às bancas os jornais de celulose. O foco são os assinantes. Motoqueiros de empresas contratadas se encarregam de lançá-los, envelopados em plástico, pelo muro de sua casa ou nas portarias dos prédios.
Outros jornais também despencaram: no Rio de Janeiro, O Globo imprime perto de 45 mil jornais. Valor Econômico perdeu 10 por cento da tiragem física e roda apenas 10.853 exemplares para seus assinantes.
Apenas dois veículos apresentaram alta no funcionamento das rotativas: a Folha de S. Paulo, com 52.920 assinaturas impressas e O Tempo, de Vittorio Medioli, com 6.454.
A pandemia que está matando os jornais impressos devasta os Estados Unidos e parece poupar somente o Japão e a Índia. O jornal Yomiuri Shimbum, de Tóquio, registra a maior circulação do planeta com 6,2 milhões de exemplares diários em sua edição matutina. A esses números espetaculares soma-se a edição vespertina cotidiana com mais 1,5 milhão.
Nas últimas duas décadas, 40 por cento dos jornais em papel nos Estados Unidos desapareceram, segundo relatório da Medill School of Journalism da Northwestern University. A mídia migrou para o digital.
No Brasil, a classe dos repórteres já subiu no telhado. A ABI informa que o número de jornalistas com carteira de trabalho assinada desceu de 42.605 no ano de 2014 para 29.306 em 2025. Em Minas, a redução, no período, foi de 34,1 por cento, desabando de 3.140 empregados para 2.040.
Na banca Sorriso, localizada na rua da Bahia com Timbiras, Ronaldo Alexandre confirma a decadência do jornal em papel. “Recebo um ou dois por dia e, às vezes, devolvo um. Ou os dois”.
Teimoso, rememoro a frase latina Verba volant, scripta manent – as palavras voam, o escrito permanece. Insisto com o Bira. E esse pacote amarrado de jornal aí na banca? Bira respondeu: “É jornal velho. Serve de tapete para os pets”.
O quilo custa R$ 15,00. Na sua concorrente, na Inconfidentes com Pernambuco, o pacote de dois quilos para cães e gatos estava na promoção, a R$ 29,90.
É o novo papel do jornal em Minas Gerais.
JD Vital é presidente emérito da Banda de Música de Barão de Cocais



