
Gosto de ler nos jornais do Rio sobre a chegada e saída de navios. Fico sabendo quando o Mormasaga carrega e quando o Mormacsea descarrega. Lendo os anúncios das empresas de navegação, integro-me à rota desses navios. Viajo com eles até Jacksonville, Savannah, Boston, Philadelphia, e também navego até Hamburgo, Bremen, Rotterdam e Antuérpia. Interesso-me pela rota oferecida pela Transmares Naviera Chilena e lá vou eu para Valparaíso, Punta Arenas, San Antônio.
Onde terei ido buscar este fascínio por navios e pelo mar? Será coisa de mineiro, inconformado com a prisão entre montanhas? Ou, quem sabe, vem dos nossos avós portugueses, italianos, espanhóis?
Por que essa nostalgia do mar, se temos rios bonitos de se ver, como o São Francisco, o Grande, o rio Doce? Olhem que ela vem de longe: Chica da Silva, mineiríssima mulata, obteve do galante desembargador João Fernandes a construção de um lago artificial e de um navio, para satisfazer sua oceânica vontade. E é o caso de se lembrar da Pampulha, mini mar mineiro, onde o político Thibau sonhou um dia lançar âncoras com seu patético navio.
A falta que o mar faz aos mineiros há de ter também suas causas econômicas: dificulta a saída e entrada dos produtos. Além disso, contribuiu para atrasar culturalmente o estado, retardando a chegada das novidades literárias, musicais, artísticas. Narrando a vida do arraial do Tijuco, John Mawe registrava, em 1810, que o grande afastamento de um porto de mar era a causa de não haver ainda no Tijuco um piano. E que falta deve ter feito um piano aos diamantinenses, gente seresteira, cujas senhoras já então “tocavam violão com muito sentimento e graça”.
De mais a mais, a paisagem de um rio nunca substitui a grandeza da visão do mar. Não foi à-toa que Cyro dos Anjos escreveu que rios e florestas são paisagens para se ver uma só vez, depois ficam monótonas, cansam, entristecem. “Não assim – completa – o panorama do mar, que é vário e a cada instante se recria. Cada onda lhe traz formas distintas, cada vaga, traços novos de vida”.
O Criador, que foi tão pródigo com Minas, recheando sua terra de metais nobres, ferrosos e não-ferrosos, bem que podia ter lhe dado um braço de mar. Mas nada. E dá-lhe montanhas, picos, maciços e chapadões, que afloram de uma das maiores extensões territoriais do Brasil. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: ali pertinho, o Espírito Santo, de um tamaninho de nada, mas orgulhoso de suas praias e de seu mar.
Esta vontade louca de Minas, de fazer-se ao mar, teve sua chance de realizar-se, graças à minha gloriosa Ubá, que num determinado momento teve a sabedoria de pôr um filho seu governando Minas e, outro, o Espírito Santo. E eles não souberam aproveitar, era hora de casar os dois estados, dar praias e portos a Minas e terras férteis ao bom povo capixaba.
Mas não se armou esse grande lobby e aqui ficamos nós a ver navios, até que chegue o verão, e o mineiro, assim como certos pássaros, lance voo em sua atávica busca do mar.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br



