No futebol, só glórias não bastam (por Erasmo Angelo)

Na última terça-feira, 15, logo após ver seu time ser eliminado da Copa Sul-Americana pelo [...]

Na última terça-feira, 15, logo após ver seu time ser eliminado da Copa Sul-Americana pelo Boca Juniors, da Argentina, em pleno estádio do Morumbis, o atacante Luciano, ídolo da torcida do São Paulo, foi cercado por repórteres que queriam sabe se os atrasos de salário no clube afetaram o desempenho do time, que teve uma atuação muito ruim. Aliás, uma rotina da equipe, ultimamente

Luciano não quis generalizar. Falou por si: “São muitos os anos que estou aqui, nunca recebi salário em dia… já recusei propostas porque amo esse clube”, justificou.  E completou dizendo que a partir de agora todos precisam “somar forças” para manter o São Paulo na primeira divisão, a Série A do Brasileirão, na qual o clube não está com a vida tranquila.

Uma intranquilidade que ronda outros grandes do futebol brasileiro, às voltas com crise financeiras graves e para as quais as diretorias tentam, mas não encontram solução. Casos de Internacional/RS. Vasco da Gama, Botafogo, Santos, que se juntam ao gigante São Paulo.

Há outros dramas financeiros críticos em clubes de tradição. Certamente, o que clube sofre grande abalo e não encontra um caminho para sua sobrevivência é a tradicional Ponte Preta, de Campinas, São Paulo, que disputa a Série B.

A Ponte, segundo dados da Federação Paulista de Futebol, é o segundo clube praticante de futebol mais antigo do Brasil, com 126 anos de existência (11/08/1900). O primeiro é o Sport Clube Rio Grande/RS (11/07/1900).

No seu processo de morte lenta, a Ponte, segundo dados da mídia paulista, acumula um déficit anual superior a R$ 30 milhões, além de uma dívida que supera os 300 milhões. Uma auditoria contratada pela direção calcula que o clube necessita de um valor próximo dos R$ 4 milhões/mês para operar sua vida administrativa, mas a arrecadação gira em torno de R$ 1 milhão.

O jornalista Manoel Costa, da Campinas, resume a dramática situação da Ponte Preta (que certamente tem paralelo com muitos outros clubes brasileiros) de forma simples: “O problema não está apenas no tamanho da dívida acumulada, mas na capacidade de gerar dinheiro para pagá-la”.

Com um problema financeiro tão gigantesco, a crise do simpático clube paulista chegou – e não poderia ser diferente – ao vestiário. Sem poder fazer contratação de reforços e devendo seis meses de salários, os jogadores que restaram no elenco entraram de greve. Para o jogo contra o América-MG (outro que está falido), no Estádio Independência (BH), no dia 30 de agosto último, a Ponte Preta teve que recorrer, às pressas, ao seu futebol de base e improvisar um time para entrar em campo para não sofrer o supremo vexame de ser apontada como ausente naquela partida. Ainda assim perdeu só de 2 a 0 para o vice-lanterna da competição.

Os números técnicos atuais da Ponte Preta são assombrosos e fatais para a sobrevivência do clube. Na temporada deste ano a “equipe” disputou um total de 38 jogos e sofreu 30 derrotas. Conseguiu cinco empates e minguadas três vitórias. No Brasileirão Série B e até o dia 15 último, acumula 26 jogos sem vencer. No seu calvário técnico, a Ponte vem de duas goleadas recordes na competição: 6 a 0 diante do Vila Nova/GO e outro 6 a 0 na última terça-feira frente ao Londrina/PR.

Embora viva hoje em estado de falência, que ameaça seus 126 anos de vida, a Ponte tem uma bela história no futebol. Foi campeã no sempre difícil Campeonato Paulista sete vezes (a última em 2017); terceira colocada no Brasileirão de 1981, duas vezes campeã da Série B do Brasileirão (1997 e 2014) vice da Copa Sul-Americana (2013). E tem também um estádio, o Moisés Lucarelli, com capacidade para 30 mil pessoas, alvo de penhoras.

A camisa do clube já foi vestida por craques famosos e alguns até atuaram na seleção brasileira.  Jogaram na Ponte nomes como Oscar, Juninho, Polozzi, Ronaldão, Fábio Luciano, Dicá, Roberto Pinto, Marco Aurélio, Mineiro, o goleador Luís Fabiano, Washington. Toda essa marcante existência da Ponte Preta está hoje, lamentavelmente, por um fio. É um triste alerta para tantos outros clubes que, também em crise financeira, brincam com sua história. Eles sabem que apenas uma história de glórias não basta.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

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