Minhas homenagens e reverências à FHC (por José Carlos Carvalho)

Quando a ideologia despreza a dimensão humanística das relações políticas e sociais, o debate se torna [...]

Quando a ideologia despreza a dimensão humanística das relações políticas e sociais, o debate se torna tóxico, melancólico e odiento.

Segmentos minoritários à esquerda e à direita estão aproveitando, covardemente, o anúncio de interdição do ex-presidente, em razão do Alzheimer avançado para denegrir o seu legado, como político e Presidente da República.

Tive o privilégio de trabalhar no segundo mandato de FHC, período do qual me orgulho como cidadão, profissional e homem público. Foi um período de grandes conquistas para a gestão ambiental brasileira, mas, sobre este assunto, sou suspeito para falar.

Quero registrar o Plano Real, que ele liderou ao lado de Itamar Franco e depois como primeiro mandatário, que foi o maior plano de transferência de renda da história brasileira. Os brasileiros nascidos antes dos anos 1990 não têm a menor noção do que é viver com uma inflação de 40% AO MÊS!

A inflação é o imposto mais perverso que recai sobre a pobreza, numa época em que a imensa maioria dos trabalhadores sequer tinham contas em banco. Tínhamos duas classes de brasileiros, os assalariados que tinham o poder de compra dizimado pela inflação e a classe média e a burguesia que protegiam sua grana com a correção monetária!

Instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal para organizar as finanças do governo. Sem responsabilidade fiscal é impossível existir responsabilidade social.

Para mim, no entanto, há uma conquista ainda mais relevante do governo de Fernando Henrique: A UNIVERSALIZAÇÃO DO ACESSO AO ENSINO BÁSICO atingida no seu período governamental, através do FUNDEB. Pela primeira vez, TODOS os filhos da pobreza puderam se matricular numa escola pública. Isto sim, é política pública transformadora. Infelizmente, nos governos posteriores, os passos seguintes, a escola integral e a qualidade do ensino caíram no esquecimento, com raras exceções, como o Estado do Ceará.

Não quero ser acrítico. Em relação às privatizações talvez eu faria diferente, considero o estatal com governança de excelência uma boa solução.

Todavia, o que temos no Brasil?

Um estatismo clientelista, fisiológico, CORRUPTO, a corrupção explícita e a corrupção disfarçada, que é a MÁ GESTÃO, vide o caso dos Correios. Com as Agências Reguladoras, criadas por ele, para assegurar o controle do Estado sobre os setores privatizados, acontece o mesmo, o fisiologismo reina absoluto.

Como amigo e admirador de FH, considero seu maior erro a adoção da reeleição sem travas: o Presidente eleito já toma posse, fazendo campanha para um próximo mandato.

Na democracia, as críticas são naturais e imprescindíveis. No entanto, é impressionante como a extrema esquerda e a extrema direita coincidem em negar ou macular o legado de Fernando Henrique. Se igualam no mesmo sectarismo e no dogma do pensamento único! Dá nojo!

A história fará um julgamento isento do seu papel como político, ativista da democracia, militante das liberdades e Presidente da República.

José Carlos Carvalho é Engenheiro Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Doutor Honoris Causa pela Universidade e Lavras, Conselheiro do Instituto Inhotim e da Fundação do Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. Foi Ministro do Meio Ambiente e Secretário do Meio Ambiente de Minas Gerais. Autor.

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