
O tempo foge em correria desabalada. Impõe mudanças. Mas muita coisa resiste e a política é um campo em permanente estado de trocas só aparentes, muitas delas meras faces de movimentos de permanência. Basta ver as listas de candidatos em gestação nos partidos políticos, sob olhar distante dos eleitores, que têm de aguardar a sua vez restrita aos minutos diante das urnas. Há nomes desconhecidos sim, mas quando se vai para os sobrenomes aí tem fartura de representantes de linhagens parecidas com genealogias monárquicas.
O fenômeno é amplo. Vai desde o mais alto cargo do país, o de presidente, até lá embaixo, nas câmaras municipais. Se não é o filho ou filha é o neto, ou eventualmente outro parente ungido pelo chefe do clã. O procedimento está ligado à fidelidade, muito presente nos discursos, mas costumeiramente abandonada ao longo das idas e voltas do cenário político geral e nas oscilantes conveniências pessoais. Confiar é um tormento para todos diante da difícil tarefa de escolher parceiros e sucessores. A hipótese de traições atormenta. Daí a preferência por parentes próximos, quando se joga com a obediência e a submissão a patriarcas.
As listas de candidatos, de vereador a presidente, vêm aí. Como preciosa mina que se espera bamburrar a cada eleição, o estado não faltará em matéria de nomes tradicionais, de cadeira cativa no espetáculo do segundo colégio eleitoral do país. Os Andradas encabeçam a relação. É assim há duzentos anos, desde que o patriarca José Bonifácio, lá nos distantes anos 1820, assumiu poderes na tutoria do imperador. Pelos dois séculos seguintes o solar da praça dos Andradas, em Barbacena, hoje patrimônio histórico tombado, transformou-se numa espécie de comitê político do conservadorismo. A influência extravasaria os limites da cidade cuja imagem também se notabilizaria primeiro pelas igrejas barrocas e, depois, pelo cultivo de flores. Apenas temporariamente faltou na escala de poder um representante dos Andradas, seja na Câmara Municipal, Assembleia Legislativa e Câmara dos Deputados. Adversários diziam: os eleitores fiéis não votam no candidato, mas na família.
A praxe se estendia ao outro lado partidário, o PSD, em luta permanente com a UDN dos Andradas até serem ambas as siglas extintas à força. Um de seus líderes históricos, conhecido pelas habilidades de conciliação, por isso conselheiro de pé do ouvido dos demais, era adepto desse tipo de sucessão político-eleitoral. Pio Canedo, vice-governador de Israel Pinheiro, igualmente de linhagem política tradicional, até aconselhava seus companheiros a escolherem familiares para sucedê-los. Advertia quanto aos riscos à espera dos que desconsideravam a certeza no parentesco e optavam pelo risco de arranjos não consanguíneos. Argumentava ser esse o modo de impedir traições. Ele próprio designou um sobrinho para o seu lugar na Assembleia Legislativa. Foi vitorioso. Mais tarde reconhecia que o sobrinho não levava o menor jeito. A cadeia sucessória quebrou aí.
Ariosto da Silveira é Jornalista.




