
Oma era o nome carinhoso com que era tratada em família e pelos amigos a senhora Bammer, mãe de meu amigo Gunther Bammer e sogra de Beatriz Orsini Bammer. Oma, a vovó de quem conhecíamos casos engraçados, contados com carinho. Fomos visitá-la em uma cidadezinha da Alemanha, onde, aos 85 anos, morava com a filha e cultivava o seu jardim.
A senhora Bammer, que no Brasil seria Dona Gertrudes, estava de costas para a porta, apoiada em um par de muletas de metal, quando entramos na sala para conhecê-la. Forçava a persiana, voltou-se, deteve o olhar e o sorriso durante alguns segundos em mim e em minha mulher e disse alguma coisa, em alemão, que Bammer traduziu: “Ah, eles vieram mesmo!”
Daí a pouco estávamos reunidos em torno de uma saborosa carne de porco defumada, salsichas e salames, ouvindo o ruído relaxante do regato e Oma acompanhava com um sorriso nossa conversa, da qual de vez em quando participava, em francês. Foi quando começaram a chegar umas visitas.
Eram vizinhos de Oma, aos quais ela cedeu, havia muito tempo, parte de sua horta. Foram chegando aos poucos, respeitosos, com seus instrumentos de trabalho, e cumprimentavam-nos de longe, caminhando direto para os seus afazeres. Era uma propriedade antiga e grande, cerca de 10 mil metros, e a velha senhora resolveu compartilhar a terra com alguns vizinhos, sem nenhuma preocupação de ganho, mas não abrindo mão de ter o seu pedaço de horta, do qual ela mesma cuidava, assim como fazia com o jardim.
Foi curioso observar os cuidados de Oma com detalhes: “Espere, Gunther não parta tanto presunto, espere até precisar de mais”. Ou: “Vocês já repararam que o nosso visitante está com o copo vazio?” E ainda: “Agora está na hora de vocês saírem para um passeio pela cidade, enquanto o sol não se põe”. Mas delicioso mesmo foi quando alguém, ajudando a tirar a mesa, quis pegar o balde com a água do gelo.
“Não. Por favor, deixe essa vasilha aqui”. E notei que ela segurou fortemente a vasilha, até que sua filha lhe perguntou o que deveria fazer com a água. “Jogue ali no regador”, ela disse. E, quando nos levantamos, ela foi direto ao regador e jogou a água sobre um dos canteiros.
Então nos despedimos da senhora Bammer. Elogiei o sabor de suas groselhas e framboesas, e a beleza de seu jardim, e então o rosto daquela senhora de 85 anos iluminou-se, ela correu os olhos pelo jardim e a horta e disse com um sorriso que a fez 30 anos mais moça: “Bonito, não é? Tudo feito com meu trabalho”.
Quando transpúnhamos o portão, dei uma olhada para trás e vi Oma, com o pequeno regador, aguando suas plantas. E fiquei feliz pelo meu amigo que, voando quando queria do Brasil à Alemanha, podia beijar a mãe e reencontrar, intacta, a sua infância.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso Alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.



