
O tempo possui uma cadência curiosa. Ele avança em saltos, mas o discurso de quem teme o amanhã parece preso em um disco riscado, repetindo a mesma melodia fúnebre há séculos.
Quando paramos para observar o debate atual sobre a jornada de trabalho, é impossível não sentir um “déjà vu” histórico, um gosto de café requentado que insiste em amargar a boca da modernidade.
Diziam, com a gravidade de quem profetiza o apocalipse, que o Brasil ruiria sem os grilhões. Na era das senzalas, o argumento era puramente matemático, desprovido de humanidade: “A economia quebra com a Lei Áurea”, bradavam as elites da época. O fim da exploração máxima era lido como o suicídio das finanças nacionais.
Sobrevivemos. Mais do que isso, tentamos, enfim, começar a nos tornar uma nação.
Anos depois, o cenário mudou, mas o tom de voz continuou o mesmo.
Quando Getúlio Vargas buscou consolidar as leis que davam ao trabalhador um chão onde pisar, foi carimbado com o rótulo de populista.
O 13º salário, hoje tão essencial quanto o próprio ar que o comércio respira no fim de ano, já foi manchete catastrófica. “É o fim”, diziam os jornais, como se o pagamento de um mês extra fosse o meteoro que extinguiria os negócios.
Agora, o relógio bate outra hora, mas o fantasma do medo permanece sentado à mesa das instituições patronais.
O alvo da vez é a discussão sobre o fim da jornada 6×1.
Assiste-se, com uma mistura de cansaço e espanto, às mesmas críticas que ecoaram no passado.
A pergunta que fica, flutuando entre os arranha-céus e as telas de cristal líquido, é simples: será que esses porta-vozes do ontem realmente conhecem o chão de fábrica do hoje? Ignoram a nova realidade demográfica, onde o tempo se tornou o ativo mais escasso? O avanço tecnológico e econômico não serve para aliviar o peso dos ombros de quem produz, ou serve apenas para acelerar a produção?
O mundo mudou. O trabalho não é mais apenas uma troca de suor por moedas, mas uma exigência de equilíbrio e saúde mental em uma era de produtividade digital.
Resistir a isso não é defender a economia; é, mais uma vez, tentar segurar os ponteiros do relógio com as mãos.
Mas o tempo, como sabemos, não pede licença para passar.
Aldeir Ferraz é Político e Escritor




