A hora do pesadelo 26 (por Glauco Saraiva)

O terror que o brasileiro enfrenta já não cabe nas estatísticas habituais da violência. Em muitas cidades, sair [...]

O terror que o brasileiro enfrenta já não cabe nas estatísticas habituais da violência. Em muitas cidades, sair à rua virou uma aposta diária: depende do bairro, da hora, do caminho, do azar de cruzar uma moto, uma disputa, uma bala perdida, uma ordem vinda de algum lugar.

Facções planejam, recrutam, lavam dinheiro, ocupam territórios, coagem comunidades, corrompem agentes públicos e negociam mortes. Pasmem: conquistaram todo esse poder em poucas décadas. Pelo menos é um sinal de que algo consegue se desenvolver no país — justamente no período em que quase tudo ao redor parece preso a uma estagnação perigosa. O Estado brasileiro, há décadas, alterna improviso e descuido. Não se trata de algum governante específico ou partido, mas de um defeito intrínseco da maneira como fazemos política.

A paralisia estatal permitiu que as facções evoluíssem de gangues prisionais para organizações com capilaridade social, logística e financeira. Elas não operam apenas em pirâmides rígidas. Funcionam também como redes descentralizadas, capazes de subornar agentes públicos, movimentar economias locais, financiar campanhas e infiltrar-se em negócios aparentemente legais: transportes, combustíveis, construtoras e contratos públicos. O tráfico virou um dos grandes empregadores informais de uma juventude sem rumo, alimentado por uma cultura de ostentação que ocupa o vazio deixado pelo próprio Estado.

A violência explodiu nos anos noventa — em parte pelo descaso com os problemas sociais e com a desigualdade; em parte pelo momento de transição política, no qual muitos grupos lutavam pelo poder, influenciados por interesses de diferentes lobbies. O país passou a caminhar sem uma direção definida, sem projetos de governo para cada área. Ministros deixaram de ser gestores para se tornarem administradores de cargos no segundo escalão, indicados pelos partidos que negociam acordos. Entram, permanecem meses, pouco produzem para a pasta que coordenam e saem perto da próxima eleição para novos voos. Voos individuais que provocam a decadência do coletivo.

Depois de todo esse tempo sem direção, a pergunta incômoda continua de pé: com inteligência, rastreamento financeiro, punição efetiva, cooperação técnica séria e perseguição aos verdadeiros centros de comando, seria impossível reduzir o poder dessas organizações? Ou nos acostumamos tanto à derrota que passamos a tratá-la como inevitável?

O brasileiro hoje não acredita mais nas instituições. Boa parte dos eleitores, seja de esquerda ou de direita, almeja, inclusive, um regime autocrático, desde que seja comandado por pessoas de sua preferência ideológica. Podemos estar novamente a um triz da ruptura, sem nos darmos conta, porque a vontade já existe em boa parte da população. Ironicamente, inclusive para os corruptos, seria o fim. É evidente que, se continuarmos mergulhados nessa onda de corrupção e impunidade — achando que tudo sempre acabará em pizza e aceitando acordos políticos que não se alinham ao interesse da nação, mas ao próprio bolso ou pescoço —, o caminho será a estagnação, a ponto de ficarmos completamente vulneráveis às influências externas, ou um novo regime autocrático. Nenhum brasileiro suporta mais os noticiários, os mesmos políticos realizando as mesmas maracutaias e contaminando a opinião pública, destruindo a esperança nas instituições e nos políticos sérios.

No caso da guerra contra as drogas, importada em boa parte da lógica norte-americana para a América Latina, sabemos que ela deixou um rastro conhecido: prisões abarrotadas, pequenos transportadores transformados em estatística, cadeias convertidas em escritórios do crime e uma população obrigada a assistir, noite após noite, ao mesmo roteiro absurdo. O repórter informa que o preso por homicídio, roubo ou agressão grave já tinha dezenove, vinte, trinta passagens pela polícia. Em casa, o telespectador faz a pergunta que resume o espanto nacional: como assim?

Enquanto isso, alguns antigos chefes presos continuam orientando, intermediários continuam circulando, o dinheiro passa por rotas conhecidas, e o sistema prisional, em colapso, distribui tornozeleiras porque já não sabe onde guardar tanta gente. Os bodes expiatórios entram e saem de cena. Os centros de decisão permanecem intactos.

Agora, o pesadelo brasileiro ganhou intensidade. Deixou de ser apenas policial, penal ou social. Tornou-se também geopolítico.

Para quem comemora a decisão americana de tratar facções brasileiras como organizações terroristas, esperando daí uma solução quase milagrosa para a criminalidade, convém alguma prudência. O México já percorreu caminhos parecidos, e a violência não desapareceu.

O risco maior é que, em nome do combate ao crime, o Brasil aceite entregar a terceiros instrumentos de pressão contra seus próprios interesses. Quando figuras políticas tratam o país como mercadoria negociável — prometendo riquezas, terras raras, influência diplomática e submissão estratégica em troca de proteção externa ou sobrevivência pessoal —, a segurança pública torna-se, de fato, uma questão de soberania.

A decisão americana não muda apenas o nome dado ao PCC e ao Comando Vermelho. Amplia o campo de jogo. Ao enquadrar esses grupos como terroristas, Washington aciona uma engrenagem jurídica, financeira e diplomática que ultrapassa o combate policial. Bancos, empresas, intermediários, operadores logísticos e instituições acusadas de ligação direta ou indireta com esses grupos passam a orbitar uma zona de risco internacional. Como o capital ilícito já se juntou à economia legal e aos serviços públicos, a marca de “terrorismo” pode dar a Washington pretexto legal para sufocar financeiramente setores inteiros da infraestrutura brasileira, transformando nossa contaminação interna em vulnerabilidade geopolítica externa.

O problema já não se limita ao bandido armado na esquina, nem ao chefe preso que continua mandando de dentro da cadeia. Passa a envolver dólar, sanções, comércio exterior, cooperação militar, disputa eleitoral e limites territoriais. Sem mencionar o risco de abuso desse poder.

É claro que o Brasil precisa combater PCC, Comando Vermelho e toda a criminalidade com muito mais inteligência, coragem e continuidade do que tem feito. Ninguém sério pode tratar uma facção criminosa como ladrão de galinha ou detalhe administrativo. Mas há uma diferença entre cooperar com outro país para rastrear dinheiro, armas e rotas internacionais, e aceitar que esse outro país transforme problemas brasileiros em instrumento de pressão política.

O PCC e o Comando Vermelho são brutais. São. Transformam muitas ruas brasileiras em uma Elm Street? Sim. Mas a pergunta mais urgente agora é outra: quem ganha poder quando esses grupos passam a ser chamados de terroristas por uma potência estrangeira, em ano eleitoral, depois de articulações explícitas do governo para evitar a medida e da oposição para solicitá-la — exatamente o que os EUA já pareciam inclinados a fazer?

A denominação das facções como terroristas foi apenas uma parte do movimento. A taxação veio na sequência. Juntas, as duas medidas atingem pontos centrais para o governo brasileiro: segurança pública e economia, justamente às vésperas da disputa eleitoral. Separadas, já seriam graves. Em sequência, sugerem algo maior: a provável tentativa de condicionar o ambiente político brasileiro por meio de pressões externas em áreas sensíveis.

Na escola, quando falávamos sobre 1964, havia uma discussão sobre até que ponto tudo fora arquitetado pelos EUA. Ao longo dos acontecimentos, isso ficou evidente, mas ainda existia certo cuidado em negar, esconder, dissimular. Atualmente, as falas e atitudes do governo americano escancaram o que pretendem, apostando apenas na força bruta.

A nação que se diz líder do mundo livre não deveria apostar na liberdade apenas dentro dos próprios limites e, ao mesmo tempo, querer direcionar ou influenciar outros países para que adotem políticas internas muito mais rígidas em seu benefício. Quem defende um princípio deve defendê-lo de forma ampla, para que o mundo também possa florescer segundo ele.

Um pouco de Kant para Trump, em cujo linguajar o que sobra é can’t.

Afirmam que a América Latina é seu quintal, o que já é, em si, um desrespeito. Todo latino-americano deveria se perguntar: o que floresceu nesse quintal desde a Segunda Guerra, quando os mocinhos, inebriados pelo poder e cheios de paranoia, lentamente se transformaram em seu oposto?

Não me parece tão sonhador imaginar que as democracias pudessem pressionar regimes mais fechados de outro modo. Em vez de tarifas erráticas, aplicadas como rompantes de poder, poderiam construir uma rede preferencial de comércio, ciência, tecnologia e parcerias estratégicas entre países comprometidos com instituições democráticas. Não se trataria de fechar o mundo, mas de premiar, de forma gradual e coordenada, quem preserva liberdades, alternância de poder, direitos civis e alguma transparência pública. O que se vê é o contrário disso: aliados e parceiros históricos castigados e ameaçados, enquanto as ações parecem favorecer opositores. Uma loucura difícil de sustentar a longo prazo, que amplia a desconfiança em relação aos americanos e pode aproximar muitos países de seus adversários.

No caso das taxações, fica evidente a tentativa de influenciar nosso destino interno, colocando em risco as boas relações entre os Estados Unidos e o Brasil.

No caso das facções, a nomenclatura aparenta mais severidade. Não é só isso. Em política internacional, nomes também operam. Abrem portas, fecham contas, justificam sanções, deslocam fronteiras. Bastam poucas palavras para mudar quem segura a chave.

Glauco Saraiva é Escritor.

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