A hora do pesadelo 26 (por Glauco Saraiva)

O terror que o brasileiro enfrenta já não cabe nas estatísticas habituais da violência. Em muitas cidades, sair [...]

O terror que o brasileiro enfrenta já não cabe nas estatísticas habituais da violência. Em muitas cidades, sair à rua virou uma aposta diária: depende do bairro, da hora, do caminho, do azar de cruzar uma moto, uma disputa, uma bala perdida, uma ordem vinda de algum lugar que ninguém vê.

Facções planejam, recrutam, lavam dinheiro, ocupam territórios, coagem comunidades, corrompem agentes públicos e negociam mortes. Pasmem: conquistaram todo esse poder em menos de três décadas. Pelo menos é um sinal de que algo consegue se desenvolver no país — justamente no período em que quase tudo ao redor parece preso a uma estagnação perigosa. O Estado brasileiro, há décadas, alterna improviso e descuido.

Essa paralisia permitiu que as facções evoluíssem de gangues prisionais para organizações com capilaridade social, logística e financeira. Elas não operam apenas em pirâmides rígidas. Funcionam também como redes descentralizadas, capazes de subornar agentes públicos, movimentar economias locais, financiar campanhas e infiltrar-se em negócios aparentemente legais, de transportes, combustíveis, construtoras e em contratos públicos. O tráfico virou um dos grandes empregadores informais de uma juventude sem rumo, alimentado por uma engrenagem cultural de ostentação que ocupa o vazio deixado pelo próprio Estado.

O aumento da violência explodiu nos anos noventa — em parte pelo descaso com os problemas sociais e com a desigualdade; em parte pelo momento de transição política, no qual muitos grupos lutavam pelo poder, influenciados por interesses de diferentes lobbies. O país passou a caminhar sem uma direção definida, sem projetos de governo para cada área. Ministros quase nunca são gestores, mas administradores de cargos no segundo escalão indicados pelos partidos que negociam acordos. Entram, permanecem meses, pouco produzem para a pasta que coordenam e saem perto da próxima eleição para novos voos. Voos individuais que provocam a decadência do coletivo.

Depois de todo esse tempo sem direção, a pergunta incômoda continua de pé: com inteligência, rastreamento financeiro, punição efetiva, cooperação técnica séria e perseguição aos verdadeiros centros de comando, seria impossível reduzir o poder dessas organizações? Ou nos acostumamos tanto à derrota que passamos a tratá-la como inevitável?

O brasileiro hoje não acredita mais nas instituições. Boa parte dos eleitores, seja de esquerda ou de direita, almeja, inclusive, um regime autocrático, desde que seja comandado por pessoas da sua preferência ideológica. Podemos estar a um triz da ruptura novamente, sem nos darmos conta, porque a vontade já existe em boa parte da população. O que, inclusive para os corruptos, seria o fim. É evidente que se continuarmos mergulhados nessa onda de corrupção e impunidade — achando que tudo sempre acabará em pizza e aceitando acordos políticos que não se alinham ao interesse da nação, mas ao próprio bolso ou pescoço —, o caminho será a estagnação (a ponto de estarmos completamente vulneráveis às influências externas) ou um novo regime autocrático. Nenhum brasileiro suporta mais os noticiários, os mesmos políticos realizando as mesmas maracutaias e contaminando a opinião pública, o que destrói a esperança nas instituições e nos políticos sérios.

No caso da guerra contra as drogas, importada em boa parte da lógica norte-americana para a América Latina, sabemos que ela deixou um rastro conhecido: prisões abarrotadas, pequenos transportadores transformados em troféus estatísticos, cadeias convertidas em escritórios do crime e uma população obrigada a assistir, noite após noite, ao mesmo roteiro absurdo. O repórter informa que o preso por homicídio, roubo ou agressão grave já tinha dezenove, vinte, trinta passagens pela polícia. Em casa, o telespectador faz a pergunta que resume o espanto nacional: como assim?

Enquanto isso, alguns antigos chefes presos continuam orientando, intermediários continuam circulando, o dinheiro passa por rotas conhecidas, e o sistema prisional, em colapso, distribui tornozeleiras porque já não sabe onde guardar tanta gente. Os bodes expiatórios entram e saem de cena. Os centros de decisão permanecem intactos.

Agora, o pesadelo brasileiro ganhou intensidade. Deixou de ser apenas policial, penal ou social. Tornou-se também geopolítico.

Para quem comemora a decisão americana de tratar facções brasileiras como organizações terroristas, esperando daí uma solução quase milagrosa para a criminalidade, convém alguma prudência. O México já percorreu caminhos parecidos e a violência não desapareceu.

O risco maior é que, em nome do combate ao crime, o Brasil aceite entregar a terceiros instrumentos de pressão contra seus próprios interesses. Quando figuras políticas tratam o país como mercadoria negociável — prometendo riquezas, terras raras, influência diplomática e submissão estratégica em troca de proteção externa ou sobrevivência pessoal —, a segurança pública torna-se, de fato, uma questão de soberania.

A decisão americana não muda apenas o nome dado ao PCC e ao Comando Vermelho. Amplia o campo de jogo. Ao enquadrar esses grupos como terroristas, Washington aciona uma engrenagem jurídica, financeira e diplomática que ultrapassa o combate policial. Bancos, empresas, intermediários, operadores e instituições acusadas de ligação direta ou indireta com esses grupos passam a orbitar uma zona de risco internacional. Como o capital ilícito já se juntou à economia legal e aos serviços públicos, a marca de “terrorismo” pode dar a Washington pretexto legal para sufocar financeiramente setores inteiros da infraestrutura brasileira, transformando nossa contaminação interna em vulnerabilidade geopolítica externa.

O problema já não se limita ao bandido armado na esquina, nem ao chefe preso que continua mandando de dentro da cadeia. Passa a envolver dólar, sanções, comércio exterior, cooperação militar, disputa eleitoral e limites territoriais. Sem mencionar o risco do abuso desse poder.

É claro que o Brasil precisa combater PCC, Comando Vermelho e toda a criminalidade com muito mais inteligência, coragem e continuidade do que tem feito. Ninguém sério pode tratar uma facção criminosa como ladrão de galinha ou detalhe administrativo. Mas há uma diferença entre cooperar com outro país para rastrear dinheiro, armas e rotas internacionais, e aceitar que esse outro país transforme problemas brasileiros em instrumento de pressão política.

O PCC e o Comando Vermelho são brutais. São. Transformam muitas ruas brasileiras em uma Elm Street? Sim. Mas a pergunta mais urgente agora é outra: quem ganha poder quando esses grupos passam a ser chamados de terroristas por uma potência estrangeira, em ano eleitoral, depois de articulações explícitas do governo para evitar a medida e da oposição para solicitá-la — exatamente o que os EUA já parecia inclinado a fazer?

A nomenclatura aparenta mais severidade. Não é só isso. Em política internacional, nomes também operam. Abrem portas, fecham contas, justificam sanções, deslocam fronteiras. Bastam poucas palavras para mudar quem segura a chave.

Glauco Saraiva é Escritor.

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