
Há uma explicação confortável para quase tudo que dá errado na defesa brasileira, falta dinheiro. É uma meia verdade útil, porque absolve quase todos. O problema é que os países que construíram poder militar e base industrial de defesa não o fizeram apenas com orçamento. Fizeram com cultura, método e disciplina institucional.
O Brasil gosta de falar em soberania, mas ainda resiste aos hábitos que ela exige. Quer os resultados de uma potência estratégica, mas frequentemente preserva comportamentos de repartição, disputa de protagonismo, dificuldade de reconhecer falhas, baixa continuidade, retenção de informação e uma estranha mania de recomeçar a história a cada governo.
Os sistemas de defesa que funcionam no mundo operam de outra forma. Israel não se tornou potência tecnológica porque pensou grande apenas. Tornou-se porque integrou ameaça, indústria, academia, inteligência e usuário num mesmo ciclo. A falha de campo volta para a engenharia, a necessidade militar vira programa, a inovação é tratada como missão nacional.
A Coreia do Sul seguiu caminho semelhante. Entendeu que defesa, indústria, exportação, construção naval, eletrônica e tecnologia pertencem à mesma estratégia. Não tratou navios, blindados, munições e radares como compras isoladas, mas como parte de um projeto de Estado. O resultado é conhecido, estaleiros gigantescos, conglomerados fortes, previsibilidade, escala e uma indústria que atende simultaneamente à defesa e ao desenvolvimento nacional.
A Turquia fez algo que o Brasil ainda hesita em fazer, tratou dependência externa como limitação de soberania. Organizou compras, protegeu competências críticas, definiu metas de nacionalização e sustentou programas por tempo suficiente para criar densidade industrial.
O ponto incômodo é que o Brasil já soube fazer isso. Engesa, Avibras, Embraer e outros casos mostraram que o país tinha capacidade de projetar, produzir e exportar sistemas complexos. O que faltou não foi talento, nem mercado, nem necessidade estratégica. Faltou permanência de propósito.
Soberania não é slogan. É comportamento coletivo. E talvez essa seja a mudança mais difícil e mais urgente para o Brasil.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático



