
A relação entre desempenho governamental de um presidente-incumbente, medida nas pesquisas eleitorais pelos índices de aprovação e desaprovação de governo, e suas perspectivas eleitorais na busca de reeleição, aferidas pelas intenções de voto, é normalmente bastante próxima, embora nem sempre automática.
Os nexos conceituais entre as duas variáveis são intuitivamente bem lógicos: se a população aprova a maneira de o incumbente governar, noutro dizer, se está satisfeita com a gestão, com as políticas públicas, com as entregas etc., tende naturalmente a apoiar as pretensões do dirigente por um novo mandato, expressando esse sentimento via intenção de votos na pré-campanha e campanha, em um primeiro momento, e, eventualmente, em decisão de voto na eleição.
A evidência empírica suporta tal apreensão intuitiva, conforme se mostra no gráfico (roxo) abaixo. Os dados, oriundos de 57 pesquisas nacionais, referem-se aos índices de aprovação do governo do presidente Lula e suas intenções de voto no 2º turno, neste ano de 2026.

Fonte: elaboração própria (MCR), com base em 57 pesquisas nacionais publicadas em 2026, de janeiro a junho. A intenção de votos do presidente refere-se à média, em cada pesquisa, dos cenários de 2º turno contra todos os pré-candidatos. As linhas de tendência das equações lineares que representam a aprovação e a intenção de votos se superpõem (coeficientes angulares iguais a zero, até a casa decimal), significando que as equações têm os mesmos coeficientes lineares (44% para aprovação e 44% para intenção de votos). Então, numericamente, na prática, os dois conceitos são indistinguíveis: os percentuais de aprovação do governo e de intenção de votos no 2º turno do presidente-incumbente em uma determinada pesquisa tendem a ser iguais ou praticamente iguais. O gráfico foi intencionalmente desenhado com os percentuais do eixo vertical partindo de zero no plano cartesiano, o que, pictoricamente, realça a proximidade e o emaranhado das curvas (tipo “namoro de cobra”). Se se alterar a escala do eixo, por exemplo, com origem em 30%, as curvas ficam mais separadas uma da outra, mas sem acarretar alterações numéricas nas equações.
Resta evidente pelas configurações quase iguais das curvas, que os dois conceitos guardam alta correspondência entre si. Quem aprova o governo tem intenção de votar no presidente-incumbente, numa relação direta: quanto maior (menor) a aprovação, maior (menor) a intenção de votos, e vice-versa.
Inobstante seja considerada na literatura especializada uma variável essencial enquanto preditora de votos de incumbentes-presidentes*, nem sempre a aprovação de um governo se traduz em correspondente intenção de votos. Alguns eleitores podem gostar da maneira de o dirigente governar e, no entanto, preferirem, por motivos variados, uma alternativa eleitoral entre as candidaturas postas.
Mas, no geral, um incumbente, detentor de apreço da população, apreço esse manifestado por bons índices de aprovação da sua maneira de governar, carrega consigo a perspectiva de ser aquinhoado com equivalentes intenções e decisões de voto. Ainda que os números de aprovação possam não ser elevados, se o incumbente é considerado confiável, competente, cumpridor de promessas, essa percepção pode vir a reforçar suas intenções de voto no cotejo com seus eventuais adversários, tornando-o competitivo.
Enfim, a aprovação de governo de um candidato à reeleição guarda relação direta e significativa com suas intenções de voto.
Por outro lado, as pesquisas eleitorais propiciam também a oportunidade de mensurar o desapreço da população relativamente à maneira do presidente-incumbente governar, mediante manifestações de desaprovação ao governo. Essas manifestações são expressas em porcentagens de eleitores insatisfeitos com a gestão incumbente, com as entregas ou ausência delas, ou com as políticas públicas de cunho geral.
Outro aspecto que as pesquisas investigam, aí já no âmbito eleitoral, é o quanto os cidadãos descartam a possibilidade de consignarem seu voto para a pretensão eleitoral do incumbente-presidente de obter um novo mandato. A medida usual para isso é o índice de rejeição eleitoral, expresso em percentagem.
A desaprovação de um governante-incumbente guarda relação bastante próxima de sua rejeição eleitoral, no mesmo diapasão de semelhança estabelecido entre aprovação do governo e intenção de votos. Com efeito, é concebível inferir que os cidadãos que desaprovam a maneira do incumbente governar também não respaldam seu intento de permanecer no comando do executivo por mais um período. O gráfico (amarelo) a seguir é bastante eloquente a propósito, retratando a estreita correspondência entre desaprovação do governo e rejeição eleitoral.
O gráfico exibe resultados de desaprovação do governo do presidente Lula e sua rejeição eleitoral ao longo do primeiro semestre de 2026. Tais dados foram compilados de 56 pesquisas nacionais publicadas no período em apreço. Observa-se que as pesquisas individuais que refletem os dois conceitos, ora mostram a desaprovação ligeiramente acima da rejeição, ora o contrário, numa evolução pictórica bastante intricada, característica de números assemelhados das duas variáveis retratadas.

Fonte: elaboração própria (MCR), com base em 56 pesquisas nacionais publicadas em 2026, de janeiro a junho. As linhas de tendência que representam as equações lineares da desaprovação do presidente e sua rejeição eleitoral são ligeiramente declinantes, com coeficientes angulares de -0,04 para desaprovação e -0,05 para rejeição. Embora as retas das equações não se superponham, elas são bastante próximas, significando que em cada pesquisa os eleitores consignam números de desaprovação da maneira do presidente governar praticamente na mesma magnitude daqueles assinalados de rejeiçao eleitoral à sua pretensão de permamecer no governo por mais um quadriênio. Noutro dizer, quando há descontentamento com a gestão governamental isso se reflete negativamente na imagem do presidente-incumbente e afeta seus índices de rejeição eleitoral (“não votaria nele de jeito nemhum”). De novo, o gráfico destaca a intricada relação pictórica entre os dois conceitos em lide, fruto da construção da escala do eixo das ordenadas com origem no ponto zero.
Essa relação, contudo, nem sempre se delineia de forma automática, com a desaprovação da gestão se traduzindo diretamente em rejeição eleitoral ao incumbente. Há várias situações que podem alterar essa conformidade. O curso da campanha eleitoral, por exemplo, pode influenciar positivamente na imagem pessoal do incumbente, de sorte a angariar simpatia de uma parte dos eleitores e, ipso facto, provocar separação entre o desempenho da gestão e a candidatura incumbente.
Fatores externos que ameacem a soberania nacional, em outro exemplo, tendem a galvanizar apoios ao incumbente e mudar a percepção do eleitorado quanto à sua pretensão eleitoral, inobstante a avaliação governamental possa não ser impactada positivamente na mesma proporção.
Nessa senda, os cidadãos podem não concordar com alguns ou vários aspectos do governo mas, ainda assim, diante de determinadas situações e das alternativas eleitorais à disposição, preferir o incumbente.
Eventualmente, em um contexto de contraponto, há situações em que os eleitores demonstram sua insatisfações com o governo, desaprovando-o, ao mesmo tempo, porém, externalizando maiores exigências quanto às aspirações do incumbente por um novo mandato. Veja-se, nesse sentido, o gráfico abaixo (verde), que expõe pesquisas nacionais do Instituto Quaest ao longo dos meses do ano em curso.
Inspecionando o gráfico, nota-se que ao longo da série as curvas de desaprovação do governo do presidente Lula e a sua rejeição eleitoral têm contornos semelhantes, mas projetando a rejeição em cada mês sistematicamente acima da desaprovação.

Fonte: elaboração própria (MCR), com base em pesquisas nacionais Quaest, publicadas em 2026, de janeiro a junho.
Pode-se intuir, in casu, que a quantidade de eleitores que rejeitam – “não votariam de jeito nenhum” – o intento do presidente de se reeleger (aproximadamente 54%, em média, nas pesquisas Quaest) é maior do que o número de eleitores que se mostram insatisfeitos com o governo-incumbente (cerca de 50%, também nas pesquisas Quaest). Quer dizer, em configurações como esta, de rejeição maior que desaprovação, ambas variáveis desfilando números elevados, o projeto de reeleição do presidente-incumbente torna-se mais desafiador.
A essas alturas, cabe destacar um último ponto relevante. As pesquisas nacionais que originaram os gráficos roxo e amarelo registraram aprovação do governo e intenção de votos do presidente- incumbente gravitando no entorno de 45% e desaprovação do governo e rejeição eleitoral ao redor de 50%, ao longo de todo o semestre, com pequenas variações em cada ponto da trajetória. O hiato entre os conceitos em cada caso é sempre pequeno. Em valores absolutos, o hiato médio entre aprovação e intenção de votos é de 1,4 ponto percentual e entre desaprovação e rejeição é de 2,6 pontos.
Isto é, a despeito da ocorrência de vários fenômenos de grande repercussão política e midiática ao longo do primeiro semestre do ano, incluindo medidas anunciadas ou implementadas do governo federal, os impactos numéricos na percepção do eleitorado foram de pouca monta, à exceção possível do episódio Flávio/Vorcaro, o de maior influência entre os eleitores, mas que, contrario sensu, teve desdobramentos numéricos menores do que se esperava, inobstante sua ampla divulgação e exploração na mídia**. Com efeito, os números das variáveis objeto deste estudo, sejam os relativos à avaliação do desempenho do governo, sejam os que refletem a perspectiva de votação às principais pré-candidaturas delineadas, tiveram variações muito pequenas.
São vários os fatores que contribuem para essa “indisposição de ânimo” da sociedade em face a eventos políticos e eleitorais de tanta envergadura. Escapa à competência deste texto, contudo, adentrar nesse mérito, o qual foi investigado alhures***, e de onde se colacionou o seguinte enxerto, pretensamente erigido como uma das principais explicações dessa anestesia social:
“… em ambiente de polarização acirrada como no Brasil pode até haver divergências de opinião intra bolhas sobre determinados temas, mas o posicionamento final de cada bando diante de fatos conjunturais tende a ser coeso, afetivo-identitário. Há pouca mudança de lado. Notícias positivas ou negativas são apoiadas ou rejeitadas em conformidade com o viés de confirmação de cada polo… o medo da ascensão ao poder do bando adversário reforça o pertencimento do voto para o mesmo campo político-identitário, independentemente dos eventos”.
Então, os eventos de 2026 [escândalo Banco Master/Vorcaro, reveses do executivo no Congresso (Messias e Dosimetria), isenção de imposto de renda, jornada 6 x1, programa Desenrola etc.], ainda que fartamente reverberados pela mídia e redes sociais, tiveram consequências numéricas marginais nas manifestações da sociedade captadas nas pesquisas.
Enfim, em apertada síntese, resta evidenciado, empiricamente, que a aprovação do presidente-incumbente está fortemente correlacionada com a intenção de voto, assim como a desaprovação se reflete diretamente na rejeição eleitoral. Entender a natureza e o alcance desses vínculos ajudam a compreender os desafios dos governantes na pavimentação dos caminhos para angariar e manter apoio popular ao longo dos mandatos.
Maurício Costa Romão, é Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, Estados Unidos.
*”… um estudo seminal que marcou a literatura da ciência política foi o de previsão de resultado de eleições presidenciais de Alan Abramowitz, em 1988, e sua famosa aplicação nos Estados Unidos, em 2008, chamada de “Time-for-change-model” (“modelo do tempo para a mudança”, ou “modelo da hora da mudança”, em traduções livres), que previu a eleição de Barack Obama sobre John McCain, projetando resultados no voto popular praticamente iguais aos das urnas. A suposição básica de Abramowitz era a de que a eleição presidencial é um referendo da performance do governante em exercício. Em assim sendo, o voto dos eleitores é fortemente influenciado pelo desempenho do incumbente à frente do governo, mesmo que ele próprio não esteja na disputa eleitoral. Para mensurar tal desempenho, o modelo usa três variáveis: a taxa de aprovação de governo, a situação econômica e o tempo do partido no poder. O autor enfatiza que embora o desenrolar da campanha e outros fatores importantes possam influenciar a decisão de voto do eleitor, ao fim e ao cabo a satisfação ou insatisfação pública com o governo, manifestadas nos índices de aprovação e desaprovação, o estado da economia na percepção popular, e a “fadiga de material”, têm peso determinante como preditor de voto”. Romão, M. C. Projeções de votação sem pesquisa eleitoral. Publicado na Abrapel, em 17/10/2025.
**No mês de maio do corrente ano, até o dia 13, data da divulgação do vídeo do pré-candidato Flávio Bolsonaro em conversa com o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, as intenções de voto em pesquisas nacionais do presidente Lula no 2º turno gravitavam ao redor de 43,2%, em média. Depois do dia 13, ainda no mês de maio, esse percentual subiu para 46,5%, um acréscimo de 3,3 pontos de percentagem. Nos mesmos períodos, as intenções de voto consignadas a Flávio Bolsonaro recuaram de 45,2% para 42,0%, menos 3,2 pontos percentuais. Tais variações podem ser consideradas relativamente grandes para ocorrência em apenas um mês. Já a rejeição ao presidente-incumbente, nos mesmos lapsos de tempo, em termos médios, estava em cerca de 51,7% e regrediu para 49,9%, apenas 1,8 ponto percentual, ao passo que a sua desaprovação passou de 51,2% para 49,9%, registrando recuo de 1,3 ponto de percentagem. Nessa senda, o episódio, numericamente, acarretou mais repercussão nos índices eleitorais do que nos números da gestão governamental, embora, nos dois casos, menos expressivos do se poderia imaginar.
***Romão, M. C. Inércia Eleitoral. Publicado no site CapaBrasil, em 26/05/2026.



