
Escrevo esse artigo na semana seguinte ao 250o aniversário da independência dos EUA. Tensões geopolíticas, mudanças relativas em poderio econômico (como ilustrado pela ascensão da China), inovações tecnológicas disruptivas (e.g., inteligência artificial, IA) e a crise do sistema multilateral de comércio vêm contribuindo para aumentar a incerteza econômica global.
A administração Trump se transformou em uma força disruptiva no que diz respeito às regras do jogo com respeito aos princípios multilaterais do comércio internacional, baseados nas disciplinas da Organização Mundial de Comércio, e com relação aos princípios de não-intervenção da Carta das Nações Unidas (Artigo 2(4), 1945). Os EUA não são os únicos a desrespeitar essas regras como ilustrado, por exemplo, pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas a atenção ao papel dos EUA nesses últimos anos é inevitável, dado que o país foi o principal arquiteto dessas regras internacionais no pós-Segunda Guerra Mundial.
O alto grau de incerteza econômica e os confrontos geopolíticos, afetando a oferta e o preço de energia e de outras commodities, vêm contribuindo para uma desaceleração do crescimento global. As previsões do Banco Mundial, por exemplo, estimam um crescimento global de 2,5% em 2026 em contraste com um crescimento de 2,9% em 2025.
No caso das economias de alta-renda o crescimento agregado previsto é da ordem de apenas 1,5% em 2026, abaixo da taxa de 1,8% observada em 2025. Os EUA, porém, devem crescer cerca de 2,2% nesse ano (um ritmo similar à taxa de crescimento de 2,1% em 2025). A resiliência relativa da economia norte-americana reflete a continuidade da expansão do seu setor de alta tecnologia. Esse desempenho, porém, ocorre no contexto de uma crescente desigualdade econômica e de um desequilíbrio fiscal significativo, que contribui para dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública do país no longo prazo.
A euforia associada com a revolução tecnológica centrada no desenvolvimento da IA tem influenciado mercados financeiros. A excepcionalidade do desempenho da economia dos EUA se baseia na tese de que os ventos a favor gerados pela IA (investimentos em infraestrutura, aumento de produtividade…) tendem a superar as influências negativas das políticas da administração Trump (tarifas, restrições a fluxos migratórios, tensões no relacionamento com aliados…).
Existem estimativas de que investimentos na construção de data centers, e em computadores e equipamento de networking teriam atingido cerca de 1,5% do PIB nos EUA no primeiro semestre de 2026. Mais da metade desses investimentos estão relacionados com a IA.
O desenvolvimento da infraestrutura de IA é hoje o principal motor de crescimento do investimento privado nos EUA. O montante desses investimentos em 2025, por exemplo, atingiu valores superiores aos dos investimentos combinados no projeto Manhattan (1944), no projeto Apollo na década de 60 e no setor de telecomunicações na década de 90. E os investimentos em infraestrutura de IA devem alcançar cerca de US$800 bilhões em 2026.
A expansão dessa infraestrutura reverbera nos mercados financeiros contribuindo para a valorização das hyperscalers — empresas como a Amazon, Microsoft, e Google — que são protagonistas na evolução da economia digital moderna. Inevitavelmente, porém, questões sobre o retorno aos investimentos em AI e as suas implicações macroeconômicas começaram a gerar dúvidas sobre a sustentabilidade desse ciclo de investimentos, um fenômeno que se tornou evidente nos últimos meses.
A sinalização das decisões futuras de investimento dos hyperscalers, qual seja a expectativa com relação a gastos com capital (CAPEX), continua, no entanto, a alimentar uma perspectiva otimista no que tange ao mercado acionário dos EUA. Mas crescem as dúvidas sobre o futuro desse ciclo. O Índice CAPE (P/L ajustado ciclicamente) desenvolvido por Robert Shiller, aplicado às ações do índice S&P 500 sugere que estamos em um período de investimento excessivo em tecnologia, refletindo a influência crescente de empresas de alta tecnologia no mercado acionário.
O CAPE para o S&P 500 atingiu 41,6 no início de julho de 2026 (em contraste com a média histórica de 17,5 em 155 anos). Esse valor sugere que o mercado está operando com preços relativamente elevados em comparação com lucros esperados, uma situação semelhante à observada antes da ruptura da “bolha” da era dot-com.
Há uma diferença importante entre a situação atual e aquela observada ao final da década de 90. Na atualidade, a maioria dos hyperscalers e as empresas de semicondutores são lucrativas em contraste com a experiência anterior. Mas em virtude dos elevados níveis de CAPEX dessas empresas, o financiamento desses investimentos irá exigir um endividamento crescente de algumas das empresas no cerne da revolução digital (por exemplo, empresas que desenvolvem LLMs).
O próximo capítulo será escrito com base nos efeitos macroeconômicos da IA. Os efeitos positivos na produtividade da economia norte-americana começam a aparecer, muito embora isso ocorra em paralelo com preocupações crescentes com relação ao impacto da IA no mercado de trabalho e com respeito às externalidades dos investimentos em data centers.
Uma variável importante nesse contexto será a evolução da política monetária do Fed (o banco central dos EUA) sob nova “administração”. O novo chairman do Fed, Kevin Warsh, parece acreditar que a IA irá ter um impacto desinflacionário, em virtude de ganhos de produtividade, e isso permitiria uma queda nas taxas de juros de referência. O debate sobre esse tema não é uma novidade. Alan Greenspan, Chairman do Fed no período 1987 – 2006, foi um dos defensores da tese de que uma revolução tecnológica ao estimular investimentos significativos poderia aumentar o crescimento potencial da economia com baixa inflação. Se essa tese se confirmar nos próximos anos, a excepcionalidade da economia dos EUA será mantida desde que novas surpresas geopolíticas não ocorram.
Carlos Primo Braga é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois Urbana-Champaign, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi Diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial. Autor.



