Quando os Deuses pecam (por Nestor de Oliveira)

Existe um ditado popular que diz “Metade dos juízes acha que é Deus. A outra metade [...]

Existe um ditado popular que diz “Metade dos juízes acha que é Deus. A outra metade tem certeza”. Ou a célebre, irônica e famosa frase de Bertolt Brecht: “Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”. Os juízes, inclusive e também a Suprema Corte do Brasil, estão na ordem do dia, melhor dizendo na desordem institucional destes tempos quando a verdade não pode ser dita, muito menos publicamente. Reconhecer pecados ou crimes é dar razão às provas e documentos fáticos e reais, inclusive com a prisão do corruptor mor, uma bomba ambulante a tirar o sono da metade das autoridades deste país, do sol tropical, bonito por natureza, com certeza.  E quem disse que estamos no tempo da verdade ou da razão? Estamos noutro e devastador tempo, das conveniências, corrupção, desonestidade, insegurança física e institucional, desonra, falta de ética e mentiras, nunca dos valores que ficaram perdidos no passado. Vagas lembranças dos homens de bem que os praticava outrora.

No Olimpo, quando deuses abusavam de seus poderes, Zeus os reunia, passava lhes forte reprimenda e distribuía punições severas aos faltosos. Se Baco exagerasse na bebida, um período de abstinência era aplicado. Se Afrodite abusasse dos casos de amor, uma reclusão era imposta e penitências de solidão. A Hércules foi aplicada a pena e castigo de realizar 12 trabalhos. A Sísifo, traidor de Zeus, foi incumbido de rolar uma pedra gigante até o topo de uma colina íngreme, que inevitavelmente voltava e ele de novo a rolava até o cume, eternamente. Os deuses também pecam, os magistrados e juízes, apesar de suas condições sobre humanas não são exceções.

A vergonha coletiva dos cidadãos brasileiros, na atual crise do nosso Supremo Tribunal, demonstra o estágio atual do ponto a que descemos em nossa sociedade. O crime organizado, as práticas desonestas cotidianas tão divulgadas, a convivência com os delitos no dia a dia, roubos, assassinatos, impunidades, desrespeito às leis nos fazem refletir sobre nosso destino e futuro, da necessidade de uma reformulação institucional de nossa frágil democracia. Segundo Maquiavel, no seu “O Príncipe”, escrito em 1513, “Um povo que aceita passivamente a corrupção e os corruptos, não merece a liberdade. Merece a escravidão. Um país cujas leis são lenientes e beneficiam bandidos, não tem vocação para a liberdade. Seu povo é escravo por natureza.”

A vergonhosa reunião acontecida entre os ministros de nosso Supremo Tribunal Federal, recentemente, demonstra bem em quais juízes e homens mortais, imaginários deuses, estão nossos destinos. Lá faltou tudo, respeito, dignidade, honra, probidade, ética, vergonha, sensatez e comportamento. Palavras e gestos, como desfaçatez, mentira, deslealdade, traição, dedos em riste, pérfidas ironias e cinismo foram usadas não deixando dúvidas quanto às suas personalidades. Ao final, e sem surpresa, um deles pelo único interesse de procrastinar a decisão de julgar um integrante, severamente acusado do pecado ou crime, pede vistas e assenta-se sobre o processo. Pelo seu peso político e jurídico o destravamento e julgamento do processo acontecerá após as calendas gregas, ou no popular “Dia de São Nunca”.   

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

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