
Na eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos o economista Paul Krugman, em artigos no New York Times, criticou os analistas e assessores políticos do presidente Joe Biden por aconselharem o então candidato a não enaltecer na campanha os fatos positivos da economia americana no seu governo.
Os artigos tiveram grande repercussão, não tanto pela autoridade do articulista, Nobel de Economia, mas por chamarem a atenção para o inusitado fato de que a assessoria presidencial, “estranhamente”, recomendava ao presidente não reivindicar créditos pelos dados econômicos reais que, de acordo com Krugman, eram sólidos.
Mas, o que embasava esse “conselho muito estranho”? O argumento dos assessores era de que grassava na população americana um notório sentimento de desânimo, apatia, desconfiança com as instituições etc., enfim, uma percepção psicológica negativa generalizada (vibecession). Nessa senda, a população não estava sentindo melhorias no seu dia a dia e que tecer loas aos feitos do governo seria projetar imagem de um presidente desconectado com a realidade dos eleitores.
Esse introito serve de ponte, mutatis mutandis, para explorar, neste brevíssimo espaço, o que se passa no Brasil atualmente em termos de conversão de políticas públicas em percepção eleitoral.
Para esse mister, faça-se, inicialmente, um filtro nas políticas públicas, circunscrevendo-as àquelas medidas anunciadas ou implementadas pelo governo federal, de maior apelo popular e/ou eleitoral, tais como: isenção de imposto de renda, jornada 6 x1, programa Desenrola, fim da taxa das blusinhas, subsídios para a gasolina, aumento do Bolsa Família etc. Depois, mensure-se a percepção eleitoral pelas intenções de voto manifestadas nas pesquisas nacionais e pelo desempenho avaliativo do governo, comparando junho com setembro (até a primeira quinzena) deste ano, sempre na média das pesquisas em cada mês.
Pois bem, em termos eleitorais, as intenções de voto do presidente-incumbente no 1º turno decresceram de 40,3% em junho para 38,5% em setembro. No 2º turno, as médias respectivas registraram diminuição de 45,8% para 44,4%, no confronto direto do presidente com seu principal adversário. Já a rejeição eleitoral, um dos itens determinantes de sucesso nas urnas, variou para cima, de 48,5% a 49,3%, entre junho e setembro.
No que concerne ao desempenho do governo, a avaliação positiva (ótimo + bom) decresceu de 35,6% para 34,9%, entre junho e setembro, enquanto a avaliação negativa (ruim + péssimo) subiu de 41,4% para 44,2%. A aprovação do presidente Lula governar involuiu de 46,0% em junho para 44,5% em setembro, ao passo que a desaprovação cresceu de 49,8% a 50,9%, no espaço de tempo em lide.
Então, inobstante grande reverberação política, eleitoral e midiática, as medidas do governo não tiveram impactos na apreensão cotidiana da população, não sendo percebidas como entregas que merecessem retribuição de intenção de voto ou manifestações de apreço avaliativo de desempenho da gestão governamental.
No artigo “Inércia Eleitoral” (CAPABRASIL) se explorou um pouco sobre algumas razões pelas quais a sociedade está como que anestesiada e não reage às medidas governamentais que se sucedem. No fundo, tudo se resume ao desalento da população com o estado de coisas imperante, em que prevalece sentimento extremamente negativo com a política e com as instituições.
Nesse ambiente psicológico, mesmo políticas públicas percebidas como positivas, com poder de afetar diretamente as condições de vida da população, não influenciam correspondente retorno do eleitorado. É o fenômeno da vibecession!
Maurício Romão é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois, Estados Unidos. Fundador e Coordenador do grupo “Pesquisas em Definitely” com a participação de Pesquisadores de Mercado e Opinião no Brasil



