O que o voto espontâneo revela? (por Adriano Oliveira)

As pesquisas eleitorais apresentam intenção de voto espontânea e estimulada. Na estimulada [...]

As pesquisas eleitorais apresentam intenção de voto espontânea e estimulada. Na estimulada, os nomes dos candidatos são apresentados ao eleitor. Na espontânea, pergunta-se simplesmente em quem ele pretende votar.  Considerando mais de 20 anos analisando pesquisas eleitorais quantitativas e qualitativas, afirmo que o voto espontâneo pode sugerir consolidação da escolha do eleitor. Ou seja: o nome citado espontaneamente pode indicar que a decisão para o dia da eleição já está relativamente formada. Friso: pode sugerir. Existe outra possibilidade: o eleitor cita determinado candidato simplesmente porque ele é o mais conhecido.

Atualmente, trabalho exclusivamente com pesquisas qualitativas por meio do Método Qualitativo SEP — Sentimento, Estratégia e Previsão — desenvolvido pela Cenário Inteligência. A partir dele, considero que a intenção espontânea pode expressar dois fenômenos distintos: consolidação do voto ou conhecimento do candidato. Se, faltando cerca de três meses para a eleição, os principais candidatos possuem níveis semelhantes de conhecimento, um deles lidera as intenções espontânea e estimulada e desperta sentimentos predominantemente positivos e consistentes, a espontânea passa a ser um importante indicador de favoritismo. Nesse cenário, sua liderança dificilmente pode ser explicada apenas pelo conhecimento.

A situação é diferente quando existe forte assimetria de conhecimento. Um governador candidato à reeleição, por exemplo, pode liderar amplamente a espontânea porque seus adversários ainda são pouco conhecidos. Se, além disso, faltam seis meses ou mais para a eleição e os sentimentos em relação ao seu governo não são intensamente positivos, a espontânea pode estar revelando lembrança, e não decisão. Os adversários ainda terão tempo para se tornar conhecidos e despertar novos sentimentos.

O Método Qualitativo SEP classifica os sentimentos eleitorais em longo, médio e curto alcance. A espontânea pode sugerir a presença de sentimentos de longo alcance quando os principais concorrentes possuem conhecimento semelhante e o candidato que lidera desperta sentimentos positivos consistentes. Nesse caso, particularmente próximo da eleição, cresce seu valor preditivo.

Se dois candidatos são amplamente conhecidos, estamos próximos da eleição, o incumbente possui avaliação de razoável para boa, desperta sentimentos predominantemente positivos e lidera tanto a espontânea quanto a estimulada, existem evidências relevantes de favoritismo. Ao contrário, diante de grande diferença de conhecimento e distante da eleição, a espontânea pode ser apenas uma fotografia da memória eleitoral daquele momento. O voto espontâneo, portanto, não deve ser interpretado isoladamente. Ele pode revelar consolidação ou apenas conhecimento. São os sentimentos, o contexto e o tempo que permitem distinguir uma coisa da outra. O número mostra onde o eleitor está. Os sentimentos ajudam a prever para onde ele pode ir.

*Artigo originalmente publicado no O Povo

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Método Qualitativo SEP (Sentimento – Estratégia – Previsão) & Estratégia

Compartilhe esse artigo: