
Organizar um aniversário de criança não é um evento social; é uma operação de guerra com cobertura de glacê.
Tudo começa meses antes, quando os pais entram em um transe hipnótico coletivo. O sonho é da criança, mas o orçamento e a gastrite são inteiramente dos adultos.
A logística envolve convites, planilhas e uma ansiedade que faria um monge tibetano roer as unhas.
A Invasão e o Buffet Infinito
Quando o relógio marca a hora H, a adrenalina sobe a níveis perigosos. Se alguém medisse a pressão do pai na porta do salão, ele seria internado ali mesmo.
A criançada chega com a energia de quem acabou de consumir três usinas nucleares de açúcar.
Enquanto os pequenos se jogam no pula-pula como se não houvesse amanhã (ou gravidade), os pais e avós fazem o “revezamento da simpatia“. É um sorriso para o chefe, um abraço na tia-avó que reclama do ar-condicionado e um olho no garçom para garantir que a mesa 4 não fique sem coxinha.
O Conflito Conjugal e os Retardatários
Por volta das 20h30, começa o tradicional duelo diplomático entre marido e mulher:O Marido:
− “Pelo amor de Deus, vamos cantar esse parabéns logo! Quero guardar os presentes e tirar esse sapato que está me matando.”
A Esposa:
− “Ainda não! Falta a prima Shirley e o pessoal do escritório.”
O Marido:
− “Shirley? A festa começou às 18h! Quase 21h e o povo ainda está no trânsito? Isso não é convidado, é explorador de buffet!”
O Drama do Fotógrafo e o Mistério do Fogo
Finalmente, a decisão é tomada:
− “VAMOS PARA O BOLO!”
Mas no caminho, surge o obstáculo final: o fotógrafo. Ele tem o poder de paralisar o tempo.
− “Agora com os padrinhos… agora com os avós… agora os vizinhos… falta o cachorro!”.
A criança já está com a mão no brigadeiro, o pai já está tendo um tique nervoso no olho, e o fotógrafo quer o “ângulo perfeito“.
Quando todos estão posicionados, surge a pergunta que cala o salão:
− “Alguém tem um isqueiro?”
Silêncio total. Em uma festa moderna, ninguém fuma. O bolo é uma obra de engenharia, a decoração custou um rim, mas ninguém lembrou do fogo.
O desespero bate. Um tio sai em disparada, bate na porta do vizinho, consegue uma caixa de fósforo úmida e volta como um herói olímpico trazendo a chama sagrada.
O Grande Final (ou quase)
Os parabéns são cantados com o entusiasmo de quem quer ir embora. No exato momento em que o pavio apaga, entra aquele casal de amigos que “perdeu a hora“.
Os garçons, que já estavam guardando os salgadinhos para a própria janta, são obrigados a fazer uma última incursão com coxinhas requentadas.
Vem a distribuição dos brindes, o choro das crianças que não querem ir embora e a trilha sonora de bexigas estourando ao fundo.
A Glória da Exaustão
Em casa, a cena é de pós-guerra. A sala é um mar de papéis de presente rasgados e brinquedos montados pela metade. A criança, enfim, está radiante, redescobrindo o sentido da vida em um carrinho de plástico.
Quanto aos pais? O sono não chega, ele atropela. A exaustão é tanta que o sofá vira uma cama de luxo.
Entre um bocejo e outro, o marido olha para a esposa e murmura:
− “Ano que vem a gente só faz um bolinho, né?”
− “Com certeza” − ela responde, já pensando no tema da festa de 5 anos.
Boa noite e até o próximo evento!
Aldeir Ferraz é Político e Escritor



