A intervenção de Trump no Brasil e o enfraquecimento da 3ª Via (por Ricardo Guedes)

Após a ida de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos para o encontro com Trump na Casa Branca, o Governo [...]

Após a ida de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos para o encontro com Trump na Casa Branca, o Governo Americano classificou o PCC e o CV como “Organizações Terroristas”, o que internamente dá o auto direito aos Estados Unidos de intervirem militarmente nos países com organizações assim classificadas. O que significa que os Estados Unidos se dão o direito de invadir o Brasil, se assim considerarem necessário.

Após o sucesso do sequestro de Maduro na Venezuela e o insucesso na Guerra contra o Irã, Trump se volta novamente para o Continente Americano, com política de dominação e de intervenção. A “Doutrina Monroe”, explicitada pelo então Presidente dos Estados Unidos, James Monroe, em 1823, “América para os Americanos”, preconiza que “Julgarmos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia”. Na falha de Trump no Oriente Médio, na Europa, e junto à China, os Estados Unidos voltam-se agora para as Américas.

Além do Brasil, já foram declarados como tendo “Organizações Terroristas” o México, a Venezuela, a Colômbia, o Equador e El Salvador. Adicionalmente, neste mês de março passado, foi assinado tratado entre os Estados Unidos e o Paraguai, no âmbito do “Status of Forces Agreement (SOFA)”, o qual permite a presença temporária de militares, tropas e equipamentos bélicos americanos no Paraguai, com o objetivo de combate ao narcotráfico e ao terrorismo, principalmente na Fronteira Tríplice do Brasil-Argentina-Paraguai. Na América dos Sul, os Estados Unidos estão hoje estrategicamente posicionados na Guiana, Venezuela e no Paraguai.

Jair Bolsonaro conduziu o país à tentativa da quebra da ordem institucional, culminando com o 8 de janeiro em 2023. Eduardo Bolsonaro, em 2025, sugeriu a Trump a aplicação de tarifas alfandegárias ao Brasil, na expectativa da possível queda do governo e libertação de Jair Bolsonaro. Agora, Flavio Bolsonaro recomenda a Trump a classificação do PCC e do CV como “Organizações Terroristas”, na expectativa da reversão da tendência eleitoral decorrente do financiamento pelo Banco Master do filme “Dark House”.

O PCC e o CV são “Organizações Criminosas”, mas não “Organizações Terroristas”. Não que o crime esteja controlado no Brasil, muito pelo contrário. Mas são criminais, e não terroristas.

Tecnicamente, as “Organizações Criminosas” são investigadas e combatidas pelo aparato policial, e as “Organizações Terroristas” confrontadas por forças militares. As “Organizações Terroristas”, com objetivos políticos, são territorialmente localizadas, enquanto as “Organizações Criminosas”, com objetivos financeiros, são territorialmente difusas. Combater as “Organizações Criminosas” como se fossem “Organizações Terroristas” é contraproducente e ineficaz. Adicionalmente, o país que mais consome drogas no mundo são os Estados Unidos, que não combatem eficientemente suas “Organizações Criminosas” na compra e distribuição das drogas. Isto sugere a possibilidade da existência de motivos adicionais, além das drogas, para as classificações agora recebidas pelo Brasil.

Interessante observar que a Lava Jato, em 2014, se amparou na “Lei da Corrupção” de 2013, que passou a incriminar não apenas os Diretores, mas também as Pessoas Jurídicas, em casos de corrupção. O artigo no Le Monde de Nicolas Bourcier, de 2013, indicou ter tido a “Lei da Corrupção” no Brasil a influência e apoio dos Estados Unidos, segundo interesses geopolíticos. A criminalização de pessoas jurídicas por corrupção nunca foi aplicada, nos Estados Unidos, Europa, ou em outros países. Na Alemanha Nazista, por exemplo, a Bayer foi uma das principais fundadoras a IG Farben, cuja subsidiária a Degesch produziu o gás do Holocausto, para indicar um caso extremo. À época da criminalização dos Diretores e das pessoas jurídicas no Brasil seguiu-se o desmanche das empresas da construção pesada brasileiras, que estavam entrando competitivamente nos Estados Unidos, após a atingirem a hegemonia na África e no Oriente Médio. Em 2014, o PIB do Brasil caiu em 8%, equivalente ao percentual de participação da indústria construção pesada no PIB brasileiro à época.

Hoje, a declaração do Brasil pelos Estados Unidos como tendo “Organizações Terroristas”, em sendo aplicado em sua amplitude, gera automaticamente o impedimento de relacionamento comercial de empresas brasileiras nos Estados Unidos e na Europa, se assim relacionadas direta ou indiretamente com as supostas “Organizações Terroristas”. Na presença de indícios de que o crime organizado no Brasil possa ter utilizado de operações financeiras junto ao Banco Master, e tendo os demais Bancos comprado e vendido títulos do Banco Master, todo o sistema financeiro pode ser atingido e danificado, como ocorrido com a construção pesada em 2014. O PIX incomoda em muito aos Estados Unidos, por tirar receita e lucro dos Bancos Americanos com suas bandeiras de Cartões de Crédito, em cerca de 6% nas compras e vendas por cartões de crédito. Mesmo Flávio Bolsonaro, tendo recebido recursos do Banco Master para o filme “Dark House”, poderia incorrer nessas sanções, a não ser que isto seja evitado por razões políticas de interesse dos Estados Unidos. Como publicado na imprensa, Flavio Bolsonaro teria prometido a Trump o inteiro apoio à entrada dos Estados Unidos no Brasil, em ocorrendo a sua vitória nas Eleições Presidenciais deste ano.

Trump tem, como interesses no Brasil, a Amazônia, e as Terras Raras. A China detém, em primeiro lugar, 49% das reservas mundiais de Terras Raras o Brasil em segundo lugar com 23%, os Estados Unidos com cerca de 2%. Pode ser que a intenção de Trump seja usar a declaração de ter o Brasil “Organizações Terroristas”, como moeda de troca em negociações com o Governo Brasileiro, política em relação à China, e econômica em relação às Terras Raras.

Por sinal, o setor agropecuário brasileiro que se cuide. Em 2023, o Brasil superou os Estados Unidos e passou a ser o maior exportador de alimentos do mundo. Grande sucesso no presente, possível problema no futuro.

Pode ser que Flavio Bolsonaro não se saia bem eleitoralmente da situação atual. A maioria das atitudes intervencionistas de Trump no mundo deram erradas. No Canadá, logo após a declaração de Trump que o Canadá deveria se tornar 51º Estado americano, Pierre Poilievre, o candidato à direita que liderava amplamente nas pesquisas, perdeu as eleições para Mark Carney, indicado por Trudeau, que tinha à época uma avaliação negativa de seu governo. Em agosto do ano passado, Trump aplicou significativas tarifas alfandegárias ao Brasil, com Lula, então em dificuldades devido ao seu governo, se reposicionou com chances eleitorais. No Irã, a população, com 80% de rejeição à política do Aiatolás, se uniu em torno no governo, Ninguém gosta de ver o seu país ameaçado.

Há uma diferença, entretanto, em relação à situação atual e a passada do tarifaço. No tarifaço, a maioria da população rejeitava as tarifas, sentindo quase que imediatamente os efeitos sobre “o bolso”. No caso atual, a maioria da população endossa atitudes radicais contra o crime organizado, sem sentir de imediato as consequências das atitudes das restrições ao Brasil. De qualquer forma, a maior probabilidade é a diminuição de Flávio Bolsonaro no cenário eleitoral.

Trump quase que joga o Brasil “nos braços” da China. A persistir a atual situação, poderá ocorrer o fortalecimento do BRICS. O BRICS é hoje mais uma junção de países do que uma organização. A vingar as decisões de Trump sobre o Brasil, o BRICS poderá dar um passo adicional significativo na formação de um bloco, político, comercial, e financeiramente com lastro em moeda ou cesta de moedas, a ser estabelecido em regras consensuadas. Na política, mesmo com arranjos internos distintos, o leit motiv da união poderia ser “o inimigo comum”, como descrito nos trabalhos de John Mearsheimer e outros.
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Adicionalmente, as atitudes de Trump ajudam a fortalecer a polarização. Na forte anteposição recíproca entre os dois lados, o receio do outro lado se eleger tende a se consolidar, com a diminuição da possibilidade do voto em uma 3ª Via, desejada, ainda embrionária, sem que nenhum candidato tenha ainda ocupado esse lugar.

É critica a situação do país.

Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e CEO da Sensus

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