
* Por Cândido Mota Coelho
Os paroquianos de Minas Novas doaram um gravador e toca-fitas K7 da TDK para o safado e preguiçoso Padre Sampaio sonorizar as suas missas, mas ele arranjou outra utilidade: gravar uma fita com a frase que usava depois de ouvir as confissões:
− “Deus, Pai de misericórdia, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados; pelo ministério da Igreja, dá-te o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”
O padre já estava cansado daquele fingimento e mentirada dos fiéis e que nunca diziam um pecado sequer, e como sempre os absolviam com a sua voz gravada, o que lhe permitia ocupar de outras coisas, deixando ao sacristão Beleléu, oculto pela tela de pano do confessionário, a chata tarefa de acionar a tecla do gravador e dele sair a sua voz de absolvição.
Mas Beleléu convenceu o padre a gravar uma segunda fala negando a absolvição de algum fiel que ali ajoelhasse e contasse pecados cabeludos, mas nunca apareciam, e Beleléu ficava ali fingindo ser o padre, mas cochilando.
Beleléu não gostava da beata e casta solteirona, Dona Corina Badaró e, certa feita e de sacanagem, apertou o botão da NEGATIVA DE ABSOLVIÇÃO DOS PECADOS, e ela saiu da igreja fula da vida e sem comungar.
Dias depois, o frei foi ao Solar dos Badarós, não apenas para saber porque ela não estava indo às missas, como fazia diariamente, mas sobretudo porque a paróquia era praticamente bancada por ela, e ela:
− “Padre Sem Pai nem Mãe dos Infernos, como Vossa Irreverendíssima Pessoa tem a cara de pau de me procurar, depois de ter negado a absolvição de pecados que nunca cometi!”
Vixi, naquele mesmo dia Beleléu quase foi pro beleléu, mas voltou pro cemitério e para o seu antigo ofício de coveiro!
Carlos Mota Coelho é Escritor e Membro da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha. Foi Deputado Federal e Procurador Federal. Autor de vários livros.



