
Costumamos acreditar que tomamos decisões com base na razão.
Analisamos cenários, ponderamos riscos, organizamos argumentos.
E então escolhemos.
Mas, na prática, a decisão já estava em evolução muito antes disso.
O que chamamos de “decisão” é, muitas vezes, apenas o momento em que a consciência alcança algo que já vinha sendo construído em silêncio.
Porque nenhuma escolha nasce do zero.
Ela emerge de camadas invisíveis:
histórias vividas, medos não nomeados, lealdades antigas, imagens internas de quem somos, ou de quem precisamos ser para sustentar um certo equilíbrio.
E tudo isso opera antes da lógica entrar em cena.
A razão não decide.
Ela organiza a narrativa interna do que já estava decidido em outra instância.
Por isso, tantas vezes, nos vemos defendendo escolhas que não sabemos explicar completamente. Ou insistindo em caminhos que, racionalmente, não se sustentam.
Não é falta de inteligência. É a presença de forças que não passam pelo crivo do argumento.
Existe uma espécie de coerência subterrânea em cada decisão.
Algo que tenta preservar uma estrutura interna, mesmo que, para isso, precise distorcer a leitura da realidade.
E aqui começa um ponto delicado:
Nem sempre escolher “melhor” é escolher diferente.
Às vezes, é apenas repetir, com novas justificativas, o mesmo padrão.
Porque mudar uma decisão implica, quase sempre, em mexer na estrutura que a sustenta.
E isso tem custo.
Custa rever histórias. Custa perder certas certezas.
Custa renunciar a versões de si mesmo que, até então, garantiam alguma estabilidade.
Por isso, nem toda lucidez se transforma em ação.
O lado invisível das escolhas não é um detalhe.
É o que, de fato, decide.
E talvez maturidade não seja tomar decisões mais rápidas ou mais assertivas.
Talvez seja conseguir, aos poucos, reconhecer de onde elas vêm.
Não pela força da razão.
Mas por um trabalho mais profundo, e menos visível e menos compreensível, de reposicionamento interno.
Porque, no fim, a qualidade das nossas escolhas não depende apenas do que pensamos.
Depende, sobretudo, do lugar de onde pensamos.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



