
A menos de três meses das eleições, Minas Gerais está à espera do príncipe que irá governá-la, ansiosa como aqueles dois moradores de rua na peça de teatro Esperando Godot, de Samuel Beckett, estreada em Paris em 1953. Na obra, Vladimir e Estragon conversam sobre a vida nos arredores de alguma cidade europeia.
Era o pós-guerra, tempo de incertezas sem fim.
Precursores dos sem teto, vistos enrolados em cobertas “tomara-que-amanheça” sob as marquises das luxuosas agências bancárias no alto da avenida Afonso Pena em Belo Horizonte, Didi e Gogô representam, segundo o autor irlandês, o ser humano à espera. Não se sabe bem de quem e do quê. Eternamente.
No caso brasileiro, temos prazos estabelecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral. As eleições foram marcadas para 4 de outubro de 2026. Até 5 de agosto, os partidos precisam definir, em convenções, os candidatos que terão os nomes na urna eleitoral.
Leio nos jornais que se tornou agônica a expectativa das lideranças partidárias por Cleitinho, líder das pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas. Nunca houve tanta indecisão política no plenário montanhês.
O presidente Lula se vê sem palanque no estado considerado fundamental para sua reeleição. Porque o PT não consegue indicar um candidato, após as desistências do senador Rodrigo Pacheco, do PSB, e da ex-prefeita petista de Contagem, Marília Campos. Outros partidos, como o PL de Flávio Bolsonaro, o PSDB e o MDB, também enfrentam dificuldades.
Apenas o Partido Novo, de Romeu Zema, já se definiu, abraçando o ex-vice de Romeu Zema e atual governador, Mateus Simões, do PSD. Aturdidos, os institutos de pesquisa incluem, nos questionários, sem alterações relevantes, os nomes do ex-prefeito da capital Alexandre Kalil e do ex-presidente da Fiemg, Flávio Roscoe.
Cleitinho, porém, não confirma nem desmente a candidatura. Ele espera “o Espírito Santo tocar” seu coração, para decidir. Promete, segundo a imprensa, fazê-lo apenas em agosto. Até lá, vai “deixar esse povo doido”, no seu linguajar desabrido em referência aos caciques partidários, subjugados em torturante demora.
A ele, se eleito, caberá, como definiu o governador Benedito Valadares, exercitar o poder sobre os mineiros, na arte da política traduzida assim:
Governar é
Nomear e exonerar
Coletar e pagar
Mandar prender e
Mandar soltar.
Em 1933, o Brasil esperneava sob o regime incipiente do presidente Getúlio Vargas, a quem Minas ajudara segurando o cavalo para o caudilho dos Pampas montar.
Minas entrou no conclave esperando Godot.
Dizem os historiadores que a elite política fez vigília, como os cardeais na Capela Sistina, à espera do novo príncipe.
Os coronéis dividiam-se entre dois candidatos aguardando a unção do monarca de poncho, vitorioso na Revolução de 1930. Um deles, o governador interino Gustavo Capanema, que ocupou o trono vacante após a morte repentina do governador Olegário Maciel, na banheira do palácio. Capanema ansiava por continuar, com o apoio do governador Flores da Cunha, do Rio Grande do Sul.
O outro, apoiado pelo ministro da Fazenda Oswaldo Aranha, também gaúcho, carregava o peso e a glória de um sobrenome de tradição ímpar, o jornalista e político Virgílio Alvim de Melo Franco, irmão de Afonso Arinos de Melo Franco, homenageado recentemente em belíssima edição, de capa dura, publicada pela Miguilim e organizada pelos escritores Arno Wehling e Rogério Faria Tavares.
Vargas não escolheu nenhum deles. Nomeou, como mandachuva, o ex-prefeito de Pará de Minas, de 41 anos de idade, batizado e registrado como Benedicto Valladares Ribeiro. Um desconhecido nos altos arraiais da Província, com a fama, injustificável, de poucas luzes e de muita birita, plantada pelos adversários da UDN.
A experiência política do novo governador resumia-se ao cargo de vereador de sua terra e de chefe de polícia. Até hoje, critica-se a visão simplista do interventor federal. A história, porém, consagra-o como raposa que praticou os ensinamentos do pensador florentino Niccolò di Bernardo dei Macchiavelli, autor de “O Príncipe”, um manual para a sobrevivência política. Manobrou, com astúcia, a teoria da “Realpolitik”, alicerçada no realismo político para governar. Com ela, Valadares permaneceu no Palácio da Liberdade, durante doze anos, de 1933 a 1945. Dois de seus pupilos, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, alcançaram a presidência da República.
E quem é o Cleitinho?
Trata-se de um senador. Tem 44 anos de idade e integra o Partido Republicanos. Em Belo Horizonte, anda na rua sem ser molestado. Uma celebridade invisível nos bairros de classe A. Um ilustre desimportante nas rodas de carteado dos cabeças de prata no Minas Tênis Clube.
Mas, o senador Cleiton Gontijo de Azevedo, nascido em 15 de abril de 1982, em Divinópolis, é um fenômeno eleitoral. Um campeão na multiplicação de votos. Via, comunicação pelo celular, a tal de propaganda digital. Fala o dialeto das periferias. Na visão dele, parlamentar foi feito para fiscalizar. E chiar.
Em apenas seis anos, elegeu-se vereador em 2016 com 3.023 votos. Chegou à Assembleia Legislativa, como deputado estadual em 2018, com 115 mil votos. Em 2022 desembarcou em Brasília com 4 milhões e 268 mil votos.
Vejo no Portal do Senado que a atuação parlamentar do senador Cleitinho tem parentesco com a vassoura de Jânio Quadros: ele quer varrer a corrupção e os privilégios dos políticos. Em seu perfil biográfico, Cleitinho informa os cortes milionários que realizou nas despesas públicas estaduais quando foi deputado na Assembleia Legislativa.
Anotei, entre suas iniciativas, a aprovação de “Projeto de Lei que proíbe a compra de artigos de luxo como lagostas, vinho importado e outros, nos Três Poderes, impedindo a ostentação com dinheiro público em todo o Estado de Minas Gerais”. Não sei se a lei vingou.
No Senado, Cleitinho apresentou projetos revolucionários, que acabam com o sigilo de 100 anos sobre gastos públicos; propõem a transparência em voos de autoridades nos aviões da FAB e pedem punição para quem usar a religião para enganar as pessoas vulneráveis.
Confesso que me surpreendi. Ouvira dizer que ele usa as redes sociais somente para xingar e denunciar, em brados populistas. Se a população o escolher, qual é o problema de um governador chamado Cleitinho?
No Paraná, o governador chama-se Ratinho. Em Minas, lembro-me de Hélio Garcia, na campanha de 1982, avisando a Tancredo Neves que os eleitores da nobreza zebuína de Uberaba elegeriam prefeito – e assim aconteceu – o candidato Fuscão Preto. Na aristocrática São Lourenço, o dono de boteco Nêga Véia foi prefeito por dois mandatos, segundo informa o jornalista Manoel Guimarães, vindo de lá.
J.D. Vital é Jornalista e Escritor e lança lança seu novo livro “Se Reclutan Guerrilleros ”, na manhã de 1 de agosto, na Livraria e Editora Ramalhete, localizada na Rua Pernambuco, 1000, em BH.



