Quando a confiança chama a desconfiança para dançar (por Elson Pimentel)

Dois médicos igualmente competentes podem chegar a tratamentos completamente diferentes? [...]

Dois médicos igualmente competentes podem chegar a tratamentos completamente diferentes?

Essa pergunta deixou de ser abstrata para mim quando acompanhei o tratamento de uma pessoa muito próxima que sofria convulsões após um AVC. Um neurologista bem recomendado prescreveu um procedimento aparentemente impecável: media continuamente a concentração dos anticonvulsivantes no sangue e aumentava as doses sempre que julgava necessário. As convulsões, entretanto, tornavam-se cada vez mais frequentes. Então, o tratamento foi suspenso.

Um segundo neurologista fez exatamente o contrário. Reduziu drasticamente a medicação e pediu apenas uma coisa: observar. Se passassem três semanas sem novas crises, reduziria novamente a dose. O procedimento foi repetido algumas vezes até chegar a uma dosagem muito inferior à inicial. As convulsões desapareceram.

Quem estava certo? A pergunta parece simples. Mas talvez esconda um problema muito mais profundo. Como pessoas inteligentes, experientes e honestas podem confiar em procedimentos tão diferentes? Essa dúvida nos acompanha muito além da medicina.

Em quem devemos confiar?

Durante séculos, astrônomos utilizaram o sistema de Ptolomeu para prever o movimento dos planetas. O modelo estava errado, mas funcionava suficientemente bem, como um relógio parado que acerta duas vezes por dia. Mais tarde, Copérnico mudou o mapa do Universo. Curiosamente, sua proposta inicial nem sempre fazia previsões melhores. Ainda assim, havia nela uma nova forma de organizar a realidade, que seria aperfeiçoada por Kepler e Newton.

Isso nos leva à primeira pergunta. Em que devemos confiar: nos resultados ou nos modelos que produzem esses resultados?

A questão parece filosófica, mas aparece o tempo todo na vida cotidiana.

Nem sempre em quem acerta

Imagine um relógio parado. Duas vezes por dia ele marca a hora exata. Naquele instante, ele está certo. Mas ninguém confiaria nele para organizar uma viagem ou uma cirurgia. Por quê? Porque acertar não basta. Importa compreender por que acertou.

Desde a antiguidade, filósofos acreditaram que conhecimento era simplesmente uma crença verdadeira acompanhada de boas justificativas. Parecia uma definição perfeita, até que Edmund Gettier (1963) mostrou, com exemplos surpreendentemente simples, que alguém pode chegar à resposta correta apenas por coincidência. O relógio parado tornou-se um dos símbolos desse problema.

A pergunta então mudou de forma. Já não bastava perguntar se uma ideia era verdadeira. Era preciso saber como ela havia chegado até ali. É nesse ponto que entra Robert Nozick.

Mas confiamos em quem aprende

Em The Nature of Rationality (1993), ele desloca discretamente o foco da discussão. Em vez de procurar um selo definitivo para distinguir conhecimento e opinião, ele pergunta se nossos procedimentos permanecem sensíveis à realidade. Uma boa maneira de pensar não é aquela que acerta uma vez. É aquela que continua acompanhando a verdade quando a realidade muda.

Essa mudança de perspectiva parece pequena, mas transforma completamente nossa compreensão da racionalidade.

Pense em um agricultor que planta a mesma variedade há vinte anos. Funcionou sempre. Mas o clima mudou, e a safra começou a falhar. Quem insiste no método pode acertar por sorte. Quem experimenta novas variedades, erra às vezes, mas aprende para onde a realidade foi.

O mesmo vale para um cientista. Uma teoria não merece confiança apenas porque explicou um experimento. Merece confiança porque continua explicando novos fenômenos, aceita correções e sobrevive a tentativas sérias de refutação.

Mesmo sem garantias

A racionalidade funciona da mesma maneira. Não consiste em colecionar acertos, mas em construir procedimentos que permaneçam capazes de aprender.

Percebi algo semelhante ao escrever para Capa Brasil os dois artigos anteriores desta série. Em Onde começam os pensamentos?, uma frase de Hannah Arendt sugeria que certas verdades têm um efeito fulminante: interrompem nossa rotina e nos obrigam a pensar.

No artigo seguinte, vimos que nossa mente frequentemente interpreta essas evidências de maneira precipitada, invertendo relações de causa e efeito e produzindo conclusões sedutoras, mas logicamente frágeis.

Entretanto, mesmo quando escapamos das falácias, ainda precisamos aprender a revisar nossas próprias certezas.

O verdadeiro significado da racionalidade não pode ser permanecer imóvel, acertando por acaso algumas vezes. Nem mudar de opinião a cada nova informação. Mas recalibrar continuamente nosso mapa do mundo, preservando aquilo que continua funcionando e abandonando aquilo que deixou de acompanhar a realidade.

Mais cedo ou mais tarde, todos nós descobrimos que a vida raramente oferece garantias. Médicos, cientistas, juízes, empresários, professores, estudantes — na verdade, cada um de nós em nossas escolhas mais importantes — precisamos decidir antes que todas as evidências estejam disponíveis.

Aceitar essa condição talvez seja uma das formas mais maduras de racionalidade. Não esperar garantias para agir, nem transformar cada dúvida em paralisia. Decidir com método, revisar com humildade e permanecer disponível para recalibrar nosso sentimento do mundo sempre que a realidade nos surpreender.

Se ao terminar este artigo o leitor sentir que encontrou uma resposta definitiva, o texto terá fracassado. Se, ao contrário, passar a desconfiar um pouco mais dos próprios procedimentos e um pouco menos da necessidade de possuir certezas finais, então a conversa terá cumprido seu papel.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

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