Com que cara eu entro no templo de Delfos? A longa trajetória do autoconhecimento (por Elson Pimentel)

Do impulso que me levou a escrever em Capa Brasil o artigo Como a Teoria dos Jogos pode ajudar em [...]

Do impulso que me levou a escrever em Capa Brasil o artigo Como a Teoria dos Jogos pode ajudar em Projetos de Vida, ainda resta algo a acrescentar. Trata-se de um tema tão importante que o próprio plano de educação do Estado coloca o jovem e seu projeto de vida no centro de todos os processos pedagógicos. Neste artigo, exploro o primeiro eixo dessa disciplina, o Autoconhecimento.

“Conhece-te a ti mesmo”

No pórtico do Oráculo de Delfos estava inscrita a frase: “Conhece-te a ti mesmo”. Seu significado vai além do reconhecimento da própria ignorância. Ao tomá-la como missão de vida, Sócrates nos ensinou que conhecer a si mesmo significa reconhecer o próprio caráter: virtudes e vícios, pontos fortes e pontos fracos, tendências e paixões. Em suma: quem sou eu e o que quero me tornar?

Se conhecer a si mesmo envolve conflito, escolha e previsão de comportamento, então estamos diante de um problema estruturalmente semelhante aos estudados pela teoria dos jogos. Daí surge uma consequência: o autoconhecimento não é apenas introspecção. É também interação. É, em certo sentido, um jogo.

O observador e o objeto são a mesma pessoa

O autoconhecimento tem uma estrutura singular: aqui o observador e o objeto coincidem. O ‘eu’ que observa já não é exatamente o ‘eu’ observado, porque o ato de observar transforma quem observa. É como tentar ver o próprio olho sem espelho.

Mas esse ‘eu’ é permanente? E quem é o ‘eu futuro’ que estou, a cada escolha, ajudando a construir? A filosofia sugere que o ‘eu’ não é uma substância fixa nem uma ilusão completa: é uma obra em andamento. Você é, em parte, a história que conta sobre si mesmo. O ‘eu futuro’ não é descoberto, é projetado.

Esse jogo acontece dentro de nós. Há um conflito constante entre o ‘eu de agora’ e o ‘eu do futuro’. Decidir bem não é eliminar esse conflito, mas organizá-lo: criar rotinas, compromissos e estratégias que façam esses dois ‘eus’ cooperarem, evitando armadilhas previsíveis, como a autossabotagem.

Se o autoconhecimento é esse jogo interno, ele só ganha sentido completo quando reconhecemos que esse ‘eu’ nunca observa a partir do vazio. É aqui que entra a circunstância.

“Eu sou eu e minha circunstância”

A conhecida fórmula de Ortega y Gasset (Meditações do Quixote, 1914) — “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não salvo a mim mesmo” — indica que o ‘eu’ não está apenas situado no mundo: ele responde pelo mundo em que está.

Circunstância não é pano de fundo. São as pessoas ao redor, a cultura, a linguagem, as tensões do momento. O ‘eu’ emerge do encontro. E a consequência é direta: o outro não é um adereço, o outro participa daquilo que você é.

Por isso, o autoconhecimento não pode ser apenas introspectivo. Ele exige confronto: com quem discorda, com quem resiste, com quem enxerga ângulos que você não vê sozinho. Conhecer-se é também aceitar ser visto.

Teoria dos jogos: a decisão como interação

Dixit e Nalebuff, em A Arte da Estratégia (2008), definem a teoria dos jogos como “o ramo das ciências sociais que estuda a tomada estratégica de decisões”. O elemento comum é que as nossas ações não são isoladas: acontecem em contextos de interdependência, isto é, o resultado de uma ação depende das escolhas dos outros. Estamos cercados de decisores cujas escolhas interagem com as nossas.

Transposto para o autoconhecimento, isso significa que conhecer a si mesmo ocorre em um campo aberto, num jogo permanente com outras pessoas e com versões de nós mesmos ao longo do tempo.

O estudante que procrastina, por exemplo, revela esse conflito interno: o ‘eu presente’ transfere custos para o ‘eu futuro’. Somos uma espécie de coalizão de ‘eus’ temporais, negociando entre si, e não um agente unitário. O mesmo raciocínio vale para o abuso de açúcar, cigarro ou álcool: o ‘eu futuro’, em algum momento, paga a conta.

Há também um jogo de sinais: projetamos imagens de quem somos, os outros interpretam, respondem e nem sempre o sinal coincide com a realidade. Parte do autoconhecimento consiste em perceber qual ‘persona’ está em jogo em cada situação concreta.

E há ainda a questão da previsibilidade. Em contextos como o já discutido Problema de Newcomb (artigos em Capa Brasil), surge uma provocação desconfortável: até que ponto somos capazes de prever nossas próprias decisões? Em alguns casos, nossos padrões são tão consistentes que um observador externo bem informado poderia antecipar nossas escolhas com mais precisão do que nós mesmos.

Mais uma vez se conclui que o autoconhecimento não pode se limitar à introspecção. Ele exige observar o próprio comportamento ao longo do tempo, com algum distanciamento — quase como se fôssemos, por momentos, um estranho para nós mesmos.

Identidade não é destino: a contribuição de Amartya Sen

Mas quem é esse ‘eu’ que buscamos conhecer? O filósofo Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia de 1998, escreveu em Identidade e Violência (2006) que cada pessoa carrega múltiplas identidades simultaneamente. Somos, ao mesmo tempo, membros de famílias, profissões, culturas, nações, religiões, grupos diversos. Nenhuma dessas dimensões esgota quem somos.

O problema surge quando essa pluralidade é reduzida a uma única identidade dominante, como se ela definisse todo o resto. Essa simplificação pode parecer natural, mas frequentemente é imposta ou reforçada por pressões sociais, culturais ou políticas.

Para o jovem em formação, a implicação é direta: conhecer-se não é encontrar uma essência única e fixa. É mapear as várias dimensões que nos compõem, e refletir sobre quais delas foram escolhidas e quais foram simplesmente herdadas.

A circunstância oferece o material, mas o modo como organizamos esse material continua sendo, em alguma medida, uma escolha.

O jogo que nunca termina

Conhecer-se é uma tarefa sempre inacabada. Envolve múltiplos jogadores: o ‘eu do passado’, cujos padrões ainda tentamos compreender; o ‘eu do futuro’, que construímos a cada decisão; os outros, que funcionam como espelhos e contrapontos; e as estruturas sociais que, por vezes, tentam simplificar quem somos.

A inscrição no templo de Delfos não prometia que a tarefa seria fácil. Indicava que era necessária. Entrar naquele templo, afinal, é assumir a responsabilidade de participar, de modo consciente, do jogo que nos constitui. Um jogo em que cada nova situação pode se converter em aprendizado, e cada aprendizado, em ação transformadora. É nesse movimento que um projeto de vida deixa de ser plano e passa a ser prática.

Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG

Ex-aluno do Colégio Estadual Central – BH/MG
Diretor da Aexa (Associação dos Ex-Alunos e Amigos)

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