
Brasília, concebida como símbolo de modernidade e racionalidade administrativa, vem gradualmente adquirindo contornos que lembram, em sentido crítico, a opulência desconectada da realidade associada ao Palácio de Versalhes. A comparação não surge por acaso, assim como a corte francesa de Luís XIV, que vivia cercada de luxo enquanto o país enfrentava dificuldades profundas, a capital brasileira muitas vezes parece operar em uma lógica própria, distante das agruras cotidianas da população.
A arquitetura monumental de Brasília, com seus amplos eixos e palácios imponentes, foi pensada para transmitir ordem e grandeza. No entanto, ao longo das décadas, esse cenário passou a abrigar uma sucessão de escândalos de corrupção que contrastam fortemente com o ideal republicano que deveria representar. A “ilha da fantasia” não está apenas na estética, mas na percepção de uma elite que não é só política que, protegida por estruturas institucionais complexas, frequentemente parece imune às consequências de seus atos.
Tal como Versalhes, onde a centralização do poder afastava o rei das tensões sociais, Brasília concentra decisões que impactam milhões, mas muitas vezes sem a devida conexão com a realidade prática do país. O excesso de privilégios, a burocracia intrincada e os episódios recorrentes de má gestão alimentam a sensação de um sistema que se retroalimenta, mais preocupado com sua própria manutenção do que com resultados concretos.
Sob uma ótica mais tradicional, é inevitável questionar se o modelo não perdeu parte de sua essência original. A promessa de eficiência e moralidade administrativa deu lugar, em muitos momentos, a uma cultura política marcada por acordos de bastidores e pouca transparência. Não se trata de negar avanços institucionais, mas de reconhecer que a repetição de desvios compromete a confiança pública.
O risco dessa nova Versalhes é histórico, quando a distância entre governantes e governados se amplia demais, o desgaste institucional se torna inevitável. A diferença, claro, é que o Brasil dispõe hoje de mecanismos democráticos e de controle que, embora imperfeitos, oferecem caminhos de correção, mas será que querem corrigir? Ainda assim, a lição permanece, nenhum sistema sustenta indefinidamente uma realidade paralela sem custos.
Se Brasília deseja deixar de ser vista como essa ilha desconectada, precisará resgatar princípios básicos, responsabilidade, sobriedade e compromisso real com o interesse público. Caso contrário, continuará a alimentar comparações incômodas com um passado que terminou, como se sabe, de forma pouco exemplar.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático




