
Se existe um conselho bíblico que envelheceu com a nobreza de um bom vinho — mas que continua sendo ignorado com a disciplina de quem ignora a dieta no domingo —, é a célebre máxima: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
A instrução primava pela elegância. Em uma única frase, Jesus estabeleceu os limites da civilidade: a moeda com a efígie do imperador fica para a administração pública; a alma e a consciência permanecem com o Criador. Sem cláusulas pétreas obscuras nem letras miúdas.
O problema é que, no grande teatro da política contemporânea, César aprendeu a usar terno sob medida e microfone de lapela, enquanto o varejo da fé resolveu transformar o altar em comitê de campanha. Vale a pena observar a matriz dessa tecnologia: o evangelismo norte-americano. Há décadas, a chamada Moral Majority nos Estados Unidos converteu parte da tradição cristã em um anexo doutrinário do Partido Republicano. O resultado dessa engenharia é curioso. Para figurar como “bom cristão” em certas latitudes do Tio Sam, a leitura dos Evangelhos parece insuficiente se não vier acompanhada do entusiasmo pelo livre porte de armas, da aversão aos impostos e da firme convicção de que o livre mercado foi esculpido no verso das tábuas da Lei. Trata-se de uma teologia da prosperidade devidamente naturalizada, onde o Espírito Santo aparenta ter conquistado um green card.
Como o Brasil guarda uma vocação quase irresistível para importar quinquilharias conceituais da Flórida, o movimento neopentecostal doméstico não tardou a tropicalizar o figurino. Importamos o modelo e agregamos o nosso habitual excesso de zelo. Em não poucas comunidades, o ritual do dízimo passou a dividir a atenção com o santinho do candidato a vereador. A bênção pastoral ganhou contornos de cabo eleitoral e o projeto de poder, convenientemente embalado como “guerra cultural”, passou a sobrepor a caridade pela contagem de votos. Há uma ironia fina — e um bocado trágica — nesse curto-circuito.
Quando uma agremiação partidária tenta se apropriar do sagrado, ela não está elevando a fé à política. Está fazendo o exato oposto: rebaixando o Transcendente à condição de mero correligionário.
Deus deixa de ser o Absoluto para figurar como garoto de propaganda da legenda. Daí para a degradação do debate é um passo curto. O adversário político já não é alguém que apenas discorda sobre a alíquota do ICMS ou a gestão do saneamento básico; passa a ser formalmente catalogado como um agente das trevas. A política perde a diplomacia do possível e ganha a solenidade de uma guerra santa de auditório.
Essa promiscuidade institucional, por fim, cobra seu preço de ambos os lados. Para a política, o prejuízo é a perda da racionalidade: com dogmas não se negocia, e sem negociação a democracia sufoca. Para a religião, o dano é de imagem: pouca coisa na história humana envelhece e se corrompe com tanta presteza quanto um mandato parlamentar.
Quando o escândalo da vez vem à tona — e a história demonstra que ele sempre vem —, a poeira que encobre o terno de César inevitavelmente se deposita sobre o paletó do pregador. Ao entregar a César o que pertence a Deus, corre-se o risco de terminar sem a bênção do Criador e sob a tutela do imperador. Se nem a moeda de Roma foi capaz de comprar a consciência de quem ouviu a lição original há dois milênios, não seriam os fundos partidários de hoje a nos convencer do contrário. Afinal, o Reino pode até comportar muitas moradas, mas nenhuma delas traz sigla partidária na placa da entrada.
Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado



