
No final de um almoço mensal de amigos de infância e ex-colegas de colégio, restávamos quatro à mesa quando Fernando Dolabela quis saber o que eu havia feito com os cinco textos sobre empreendedorismo que me enviara.
Contei que estavam sendo publicados no site da nossa Associação dos Ex-alunos e Amigos, a Aexa (https://aexa-estadualcentral.org.br). A conversa prosseguiu e perguntei se toparia liderar um projeto de empreendedorismo no Colégio Estadual Central. “Com alguns alunos super interessados, eu topo.”
A resposta me entusiasmou. Dolabela dedicou boa parte da vida à educação para o empreendedorismo, com programas que alcançaram milhares de professores e estudantes no Brasil e no exterior.
Recentemente, foi convidado a aceitar o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, por seu trabalho naquele país. Agora oferecia sua experiência a jovens do local em que estudou, um colégio de Belo Horizonte cuja arquitetura, projetada por Oscar Niemeyer há setenta anos, é patrimônio reconhecido.
Mas o que estaríamos propondo ensinar? A abrir empresas? A ganhar dinheiro? Ou a olhar para o mundo e agir sobre ele de outra maneira? Voltei aos seus cinco textos.
Ganhar ou fazer dinheiro?
Em A diferença entre ganhar dinheiro e fazer dinheiro,Dolabela chama a atenção para duas expressões: em português, costumamos dizer ‘ganhar dinheiro’; em inglês, make money, ‘fazer dinheiro’. A primeira sugere uma atitude coletora: disputar ou receber um valor já existente. A segunda, a possibilidade de criar valor.
A distinção não é rígida: quem ganha dinheiro também pode criar valor; quem abre uma empresa pode apenas disputar o valor produzido por outros. O que importa é deslocar a atenção da apropriação para a criação: perceber necessidades ainda não atendidas e imaginar maneiras de satisfazê-las, mesmo quando não há pagamento envolvido.
Criar valor não exige necessariamente inventar algo que nunca existiu. Pode significar fazer existir, numa determinada realidade, uma possibilidade que até então não estava ao alcance das pessoas.
Em Adversaridade ou cooperação?, Dolabela amplia o conceito: empreendedor pode ser o artista que cria, o servidor público que melhora um serviço ou alguém que encontra uma solução para um problema social. Abrir empresas é apenas uma das maneiras de empreender.
A realidade não está pronta
Costumamos avaliar alternativas, comparar riscos e escolher a melhor opção. Mas não precisamos aceitar como definitivas as condições encontradas. Podemos imaginar outra possibilidade, procurar parceiros, reunir recursos e tentar modificar as próprias condições da escolha.
Há um exemplo próximo. Entre as iniciativas educacionais da Associação, está a proposta de um curso técnico em Administração com ênfase em projetos comunitários.
Imaginemos alunos que identifiquem um problema no bairro. Para enfrentá-lo, precisariam ouvir moradores, buscar parceiros e experimentar soluções. Estariam criando uma alternativa, não apenas escolhendo entre as existentes.
Empreender, nesse sentido, é projetar uma intenção no futuro e agir para realizá-la. Não significa, porém, que toda iniciativa seja boa: também se pode inovar para prejudicar os outros. A capacidade de transformar a realidade não é, por si só, uma virtude. Tampouco é garantia de sucesso: entre a ideia e sua realização há obstáculos, incertezas e decisões alheias.
Ninguém empreende sozinho
A imagem do empreendedor solitário esconde as relações de que depende qualquer iniciativa. Ideias precisam de conhecimentos, recursos e confiança. Frequentemente mudam no contato com outras pessoas.
Em Aprendendo nos corredores, Dolabela lembra que nem tudo se aprende na sala de aula: uma conversa informal pode despertar uma ideia que ninguém havia planejado ensinar.
O mesmo princípio aparece em O cafezinho mudou o mundo, no qual examina a contribuição dos cafés para a história das ideias. Numa palestra para nosso grupo de ex-alunos, um ano atrás, ele trouxe um exemplo mineiro: Santa Rita do Sapucaí, onde esses estabelecimentos favorecem encontros e trocas de experiências entre pessoas ligadas à educação e à tecnologia.
Corredores e cafés aproximam pessoas que talvez não se procurassem; dessas conversas podem surgir projetos inesperados. Nossa proposta nasceu assim: quatro antigos colegas conversando depois do almoço. Nenhum poderia realizá-la sozinho.
O direito de experimentar
Muitos alunos do ensino médio do Colégio Estadual Central vêm de famílias de baixa renda e moram em bairros afastados. Para eles, educação empreendedora não deveria ser uma lição de esforço individual como solução para desigualdades que não criaram.
Um jovem de família favorecida costuma ter contatos, informações, recursos e margem para experimentar sem comprometer a sobrevivência. Talento e vontade não estão distribuídos segundo a renda. Oportunidades, sim.
Em outro texto (Quando o trabalho saiu de casa), Dolabela associa a educação empreendedora à autonomia e à passagem da dependência para a autossustentação. Em vez de perguntar a um estudante se quer ser empresário, talvez seja mais fértil perguntar: que problemas você gostaria de aprender a resolver?
A resposta pede imaginação e iniciativa, mas também cooperação e conhecimento. Nesse ponto, empreendedorismo e projeto de vida se aproximam.
Aprender a empreender inclui aprender com tentativas que não deram certo. Mas fracassar não custa o mesmo para todos. Para uns, o erro consome algum tempo ou dinheiro; para outros, ameaça recursos indispensáveis à família. A escola não garante a realização de projetos, mas pode oferecer um ambiente em que seja possível tentar, compreender o erro e recomeçar sem colocar em risco o próprio futuro.
O primeiro passo
Volto à condição de Dolabela: começar com poucos alunos muito interessados. Não se trata de convencer centenas de jovens a empreender, mas de permitir que alguns experimentem, movidos pela curiosidade e orientados por pessoas experientes.
Seria um projeto piloto, ainda por construir. Não sabemos se haverá disposição institucional para mobilizar as pessoas necessárias, nem se a experiência dará certo. Se houver essa disposição, faz sentido começar pequeno, experimentar, observar os resultados e corrigir o percurso.
Às vezes, esperamos condições ideais para agir. Outras, damos um primeiro passo e descobrimos que o caminho não existe. Mas também há ocasiões em que esse passo ajuda a abrir um caminho novo.
Não precisamos transformar toda iniciativa em heroísmo, nem todo fracasso em lição edificante. A realidade pode ser rica em possibilidades, mas elas nem sempre estão ao alcance de quem mais precisa delas. Talvez uma educação empreendedora deva ensinar não apenas a reconhecê-las, mas a criar condições para realizá-las.
Por enquanto, diante de um educador disposto a ajudar e de jovens que poderão se interessar, prefiro uma pergunta: por que não começar?
Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG
Ex-aluno do Colégio Estadual Central – BH/MG
Diretor da Aexa – Associação dos Ex-alunos e Amigos do CE



