
Existe um ponto que separa países que constroem poder daqueles que apenas o consomem, a previsibilidade estratégica. E, no campo da defesa, isso se traduz em orçamento estável, planejamento de longo prazo e integração entre Estado e indústria.
A Coreia do Sul entendeu isso há décadas. O Brasil, ainda não.
Enquanto os sul-coreanos mantêm investimentos consistentes entre 2,6% e 2,8% do PIB em defesa, com foco claro em inovação e exportação, o Brasil oscila entre 1,2% e 1,4%, sendo que mais de 70% desse valor é consumido por despesas com pessoal. Resultado, baixa capacidade de investimento, descontinuidade de projetos e perda de competitividade.
A diferença aparece no produto final.
A Coreia do Sul figura entre os maiores exportadores globais de sistemas de defesa, com portfólio completo, de blindados a sistemas avançados. Não é coincidência. É método.
O Brasil, por outro lado, ainda depende de ciclos políticos. Projetos avançam, recuam ou ficam em espera conforme o governo de turno. Isso não é estratégia, é improviso institucionalizado.
E o cenário global não permite mais hesitação.
A guerra contemporânea combina alta tecnologia com soluções de baixo custo e alta escala, como drones e sistemas autônomos. Quem domina essa equação, qualidade + volume + custo, estabelece vantagem operacional.
Hoje, o Brasil possui empresas relevantes, como Embraer e Avibras, mas operam como ilhas, falta escala, coordenação e continuidade.
Em que estágio estamos?
Um estágio intermediário, com capacidade técnica instalada, mas sem densidade industrial e inserção global consistente.
O que precisa ser feito?
Estabelecer um orçamento de defesa com horizonte mínimo de 15 anos, reduzir a rigidez dos gastos, ampliar investimento em tecnologia, integrar Forças Armadas, indústria e academia, priorizar drones, sistemas autônomos e ciberdefesa, e criar uma política agressiva de exportação.
Quanto tempo levaríamos?
Com disciplina estratégica, de 10 a 15 anos para alcançar patamar semelhante ao da Coreia do Sul.
Como acelerar?
Parcerias internacionais são fundamentais. A Coreia do Sul é parceiro natural, domina produção em escala e busca expandir mercados. A lógica deve ser clara, coprodução e transferência de tecnologia, não simples aquisição.
Mas é preciso franqueza: parceria sem estratégia vira dependência.
No fim, o debate não é técnico. É político e estratégico.
O Brasil precisa decidir se quer uma indústria de defesa relevante ou continuará tratando defesa como custo.
Porque, na prática, quem não constrói capacidade, comprará dependência certamente.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor climático do instituto Climático VBH



