
Será que geração do celular está enfraquecendo o espírito de corpo, e se sim, quem vai assumir esse risco de termos uma tropa desconectada da coletividade?
A introdução massiva do celular na vida das pessoas e consequentemente nas escolas militares e faculdades trouxe ganhos evidentes, acesso à informação, agilidade e até apoio ao estudo. Mas também abriu uma fissura pouco debatida, o impacto na vida em coletividade, pilar central de várias profissões e basicamente da profissão militar.
Dados internacionais ajudam a balizar o debate. Estudos da American Psychological Association e da OCDE indicam que o uso excessivo de smartphones está associado à redução de atenção, piora na retenção de conteúdo e menor interação social presencial. Em ambiente civil, isso já preocupa. Em ambiente militar, onde coesão, confiança e espírito de corpo são ativos operacionais, o efeito pode ser mais profundo.
Há um ponto sensível, pertencimento. A geração formada no pós-celular tende a construir vínculos mais frágeis no mundo físico e mais intensos no digital. Isso pode afetar diretamente a identidade militar, que sempre foi forjada no coletivo, na privação compartilhada e na convivência intensa. Não é apenas disciplina; é cultura.
Quando olhamos para fora, o contraste é interessante. Na United States Military Academy (Estados Unidos), o uso de celular é rigidamente controlado, especialmente nos primeiros anos, justamente para fortalecer integração e foco. Na Royal Military Academy Sandhurst (Reino Unido), há restrições severas durante fases críticas do curso. Em academias da Coreia do Sul e do Japão, o controle é ainda mais rigoroso, refletindo culturas que priorizam disciplina coletiva. Já na Espanha, há uso permitido, porém regulado por horários e fases da formação.
E o Brasil? Nas três forças, houve uma flexibilização progressiva. O celular entrou como ferramenta, mas sem uma doutrina clara de emprego no processo formativo. Resultado, muitas vezes ele compete com o instrutor, com o grupo e com o próprio processo de construção do militar.
Isso ajuda a explicar, em parte, uma percepção crescente de perda de atratividade da carreira. Não apenas por fatores salariais ou institucionais, mas por uma mudança na experiência formativa. Se o jovem não vivencia intensamente o pertencimento, ele dificilmente desenvolverá o compromisso que sustenta a carreira no longo prazo.
A questão não é demonizar o celular, seria simplista. Mas ignorar seu efeito é ingenuidade. Talvez seja o momento de recuperar algo que sempre funcionou, restrição inteligente. Especialmente em academias militares, onde se forma mais do que profissionais, forma-se identidade.
No fim, a pergunta é direta, estamos formando militares conectados ou desconectados entre si?
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático




