Slalom em Milão (por J.D. Vital)

Agora que ficamos livres do suplício de assistir pela TV a uma partida de Curling nos finados Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, venha comigo em um giro por [...]

Agora que ficamos livres do suplício de assistir pela TV a uma partida de Curling nos finados Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, venha comigo em um giro por Milão.

Mas vamos recuar cinquenta anos. No inverno de 1976, subíamos ao andar superior do prédio da rua Galileo Galilei, 6, em elevador panorâmico, minúsculo e gradeado como uma jaula de ferro, que se alçava no vão central do palacete novecentista milanês, entre as escadarias de mármore. Ali funcionava o Collegio Internazionale per Studenti d’Oltre Mare, um nome pomposo para uma república de estudantes estrangeiros.

Aquela gaiola provavelmente era contemporânea das furrecas que em 1918 transitavam nos corsos da redondeza durante a Primeira Guerra Mundial.  Numa delas, a caminho do Ospedale Maggiore, estava o jovem subtenente Ernest Miller Hemingway, motorista de ambulância da Cruz Vermelha Americana a serviço do exército italiano. O paciente fora ferido na perna por 200 estilhaços de uma bomba austríaca enquanto distribuía chocolate e cigarros a soldados nas trincheiras, na frente de batalha.

Aos 19 anos de idade, Hemingway apaixonou-se pela enfermeira escocesa Agnes von Kurowsky. Mais tarde, de volta aos Estados Unidos, ele contou sua sofrida história de amor no romance Adeus às Armas, publicado em 1929 pela editora Scribner. A tradução da edição brasileira recebeu a assinatura do escritor Monteiro Lobato.

Antoine K. zarpava do Collegio antes que qualquer clarão da manhã pudesse alumiar, com o pudor de uma lamparina de Minas Gerais, as ruas próximas à Piazza della Repubblica. No final do dia, quando o telejornal anunciava mais um ataque terrorista das Brigadas Vermelhas, a praça transformava-se em passarela invernal para a prática do slalom, na arena de gramados verdes e desprotegida de holofotes.

 De longe, eu observava os homens abordarem, em ziguezague, as damas da noite – russas, polacas e outras mulheres do Terceiro Mundo, de pernas nuas, metidas em casacos de visom arrematados em brechós na região artística de Brera. Participavam do esporte alguns hóspedes do   Principe di Savoia, um hotel de luxo vizinho, preferido por clientes estrelados, entre eles, Tyrone Power, Evita Perón, Joséphine Baker e Charles Chaplin.

Eu mal conseguia abrir os olhos, mas dava para vê-lo de jaleco branco, estetoscópio no pescoço, porte de diplomata. Antoine estagiava no Ospedale Maggiore. O hospital foi fundado pelo Duque Francisco di Sforza em 1456 e, terminada a Segunda Guerra Mundial, incorporou-se ao complexo da Universidade de Milão, conhecida como “La Statale”, do governo italiano. Era um excelente estabelecimento público de saúde, sob a denominação de Policlínico. Antoine cursava medicina.

Geralmente, antes de dormir, conversávamos sobre o racismo europeu e as ideias libertárias do médico psiquiatra Frantz Fanon, autor de Os Condenados da Terra. Ouvíamos, sem vontade de variar, o Adagio de Albinoni, que o maestro Herbert von Karajan gravou no comando da Filarmônica de Berlim. Antoine apreciava os clássicos. Acompanhei-o ao Teatro La Scala para assistir Karl Bohm, maestro austríaco nascido em Graz em 1894, suspeito de filonazista. Ele regeu, parte sentado, a Nona Sinfonia de Beethoven.

Disse a meu amigo que o brasileiro Carlos Gomes, compositor de O Guarani, brilhou no La Scala. No camarote emprestado por um aristocrata da cidade, Antoine olhou-me com a carantonha de indisfarçável descrença. O doutor K. cultivava certa ojeriza de brasileiros. Achava-nos levianos e arrogantes desde a publicação de um estudo sobre o Zaire, elaborado por um sociólogo mineiro. “Veja, ele passou quinze dias lá e produziu um tratado de história e ciências políticas sobre nós” – queixou-se aborrecido.

Eu também custava a acreditar que o teatro, considerado a Capela Sistina do canto lírico, tivesse conseguido se reerguer após os bombardeios da aviação britânica que em 15 e 16 de agosto de 1943, despejou 600 toneladas de explosivos sobre a região. Os aviões aliados pouparam o Duomo, onde Alain Delon filmou “Rocco e i suoi fratelli”, dirigido por Luchino Visconti. Mas arrasaram, sem piedade, a basílica de Santo Ambrósio e o convento dominicano de Santa Maria delle Grazie. Aqui, o muro com a Última Ceia pintada por Leonardo Da Vinci escapou incólume. Puro milagre.

Antoine preferiu falar de Maria Cecília Sofia Kalogeropulos, a soprano de O mio Babbino caro, de origem grega, nascida em Nova York e convertida em a diva da ópera com o nome de Maria Callas. Por mais de dez anos, ela dominou os cenários da glória, paparicada pela imprensa como a “Divina do La Scala”. As maiores celebridades mundiais lançavam-se a seus pés, em adoração. Visconti a venerava. Callas era “pura eletricidade”, declarou o maestro, pianista e compositor norte-americano Leonard Bernstein, um dos maiorais da música clássica no século 20.

Foi assim, de 1947, quando chegou à Itália, aos 24 anos de idade, até sua última apresentação no La Scala em 1962. Então, a voz de Casta Diva, única e inigualável, embebedou-se do veneno mitológico de seus antepassados, a tragédia. Maria Callas caiu do palco, desprezada pelo bilionário armador grego Aristóteles Onassis. O namorado trocou-a pela Jacqueline, a cobiçada viúva do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy.

Julien C. também estudava medicina. Voava escadarias abaixo para tomar o bonde. Sempre atrasado e na correria. Ia treinar no San Siro. Se tivesse trocado as sapatilhas brancas pelas chuteiras, sua encantadora habilidade enfiaria a bola entre as pernas de Gianni Rivera, “il Bambino d”Oro” do futebol na Itália, cabeça e coração do Milan, eleito melhor jogador do mundo em 1969, o primeiro craque da Península premiado com a “Bola de Ouro”.

Os dirigentes da Inter queriam-no no time. Cansei de anotar recados de mocinhas italianas para ele. Julien, o indez do colégio, desfilava com displicente elegância pelas galerias de Milão. Caminhava, falava e sorria no embalo de Sidney Poitier, nosso herói de filmes adoráveis, como Uma voz nas sombras (Lilies of the Field, 1963) e Adivinhe quem vem para o jantar, de 1967, com Spencer Tracy e Katherine Hepburn no elenco.

Julien seguia os passos de Antoine. Eles vinham do Zaire, antigo Congo Belga e uma possessão pessoal do rei Leopoldo II, da Bélgica. Atos de tortura, afogamentos, mutilação dos congoleses, assassinatos em massa e incineração de aldeias marcaram a colonização do território subjugado durante anos pela barbárie da coroa e, posteriormente, pelo governo civil.

Antoine e Julien falavam francês e o idioma Suaíli. Seu corte de cabelo à escovinha destoava do meu cabelão Black Power que impressionou o escritor romeno Virgil Gheorghiu, autor de A 25ª Hora. O literato vaticinou (com o testemunho do jornalista Charles Magno Medeiros) uma carreira gloriosa para mim em Hollywood.

Relutavam em discutir política. Por precaução. Pois, seu país, agora independente dos belgas, sobrevivia sob a bengala (de longo alcance) e o barrete de pele de leopardo de Mobutu Sese Seko, descrito pela revista Time como “arquétipo do ditador africano”. O New York Times acusou o tirano de construir sua “longevidade política sobre três pilares: violência, astúcia e uso de fundos estatais para subornar inimigos”. O império de Mobutu durou mais de 30 anos.

Tomei uma “Birra Moretti”, a cerveja mais antiga da Lombardia, com Julien no bar vizinho do palacete. Ofereci-lhe um MS. Custava menos esse cigarro nacional, acrônimo de Messis Summa (melhor colheita, em latim) ou de Monopoli di Stato, lançado para concorrer com as marcas americanas.

O egípcio Joseph acomodou-se à mesa. O rapaz também frequentava a faculdade de medicina. Eu o achava parecido com seu conterrâneo o ator Omar Sharif, no papel do Dr. Jivago, o médico e poeta apaixonado pela enfermeira Lara Antipova, a atriz britânica Julie Christie, nos turbulentos dias da revolução bolchevique de 1917. O filme teve a direção magistral do inglês David Lean.

O cinéfilo Joseph disse que o escritor russo Boris Pasternak (1890-1960), autor da obra que inspirou o filme, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1958, graças à editora Feltrinelli, de Milão, que a publicou em 1957, apesar das pressões da esquerda italiana. O jornalista italiano comunista Sergio D’Angelo contrabandeou os originais do livro, proibido na então União Soviética. Confiou o material à editora.

O Partido Comunista Italiano, a maior agremiação política do comunismo no Ocidente, não gostou. Expulsou de suas fileiras o editor Giangiacomo Feltrinelli, de família rica, combatente da Resistência italiana e ativista radical da luta de classes. O intelectual rebelde não compactuava com o autoritarismo moscovita. Defendia a liberdade de pensamento e de expressão. Pasternak foi forçado pelo Kremlin a renunciar ao Nobel e, condenado ao esquecimento, morreu como inimigo do estado.

Julien confidenciou à mesa que não se casaria com sua “ragazza”. Arregalamos os olhos. Curtíamos o casal:  o príncipe de Kinshasa, de negra pele excitante, e a moça loira que circulava com botas de couro envelopando, dos pés aos joelhos, as pernas longas e delicadas de uma estátua romana. Não se largavam. As mãos enlaçadas, quando não estavam abraçados.

C. confessou que a proximidade da formatura na Statale aumentara o desconforto e a aflição que lhe queimavam o estômago quando imaginava o regresso ao Zaire, de braços com uma mulher branca. “Ela será maltratada. Judiada pelas mulheres da aldeia” – revelou, enxugando a face nos punhos do capote de cashmere bege.

Passados cinquenta anos, permaneço fiel a Von Karajan. De madrugada, quando a cerração baixa sobre as serras da Cambota e do Caraça, saio à varanda de minha casa em Barão de Cocais para escutar o Adagio de Albinoni. É, no entanto, o compositor paulista Carlos Gomes, de cabeleira assanhada e cara de índio, quem rege as minhas recordações amorosas de Milão – Hemingway, Maria Callas, as mulheres caçadas no Slalom, Dr. Jivago e Julien C.

Maria Lúcia Godoy confunde meu coração com a modinha que Carlos Gomes compôs ainda na juventude para a amada que ficou na saudade.

Tão longe, de mim distante, onde irá teu pensamento”.

Nunca mais tive notícias de Antoine e de Julien depois de seu regresso à África. Onde andará cada um deles? Eles dividiam comigo, fraternalmente, o farnel tribal de “fufu”, uma goma de mandioca encorpada, de cor da neve, sem sal como o angu, que comíamos amassada pelas mãos, como o capitão de feijão da minha infância.

Desconheço o “gran finale” daquele romance ítalo-congolês. Inutilmente, busco nas redes sociais informações sobre Antoine, se ele fez carreira na medicina ou envolveu-se na política. Antoine K., culto e diplomata, daria um brilhante ministro de Estado do seu país, cujo nome foi alterado para República Democrática do Congo, após a deposição do ditador Mobutu Sese Seko em 1997.

Encravado na África Central, fronteiriço a Angola, Uganda, Sudão do Sul e Tanzânia, a pátria de meus velhos companheiros peleja para superar as sequelas do colonialismo e das divisões tribais que alimentam conflitos fratricidas. É rica em inteligência humana, em florestas equatoriais, ouro, diamantes e outros minerais de alto valor.

Soube, porém, que o Collegio Internazionale per Studenti D’Oltre Mare fechou. A informação veio de Gabriele Boniato, estudante de química industrial e único morador nativo na casa. Os mantenedores da instituição optaram por conceder bolsas de estudo aos alunos nos países em que vivem. Gabriele descobriu-me, via o Google, mas não obteve o contato dos africanos. É casado desde 1977 com Maria Grazia. Na foto, aparentam jovialidade e saúde. Ocupa o tempo da aposentadoria cuidando do pomar e dos netos, em férias a beira mar e em atividades sociais de voluntariado. Dá aulas de reforço de matemática a estudantes necessitados.

Li que Gianni Rivera, na esteira do Romário, entregou-se à política: foi deputado, senador e subsecretário de Estado do Ministério da Defesa em governos da Itália. Na crise da COVID, manifestou opinião pessoal contra a vacina. Nos dias de Via Galileo Galilei, visitei o Milanello, centro de treinamento do Milan sob os Alpes. Publiquei sobre Rivera a matéria intitulada Um jogador que comprou o time para continuar jogando: o fabuloso Milan.

J.D. Vital, jornalista e escritor, foi chefe da Assessoria de Imprensa e Relações Públicas nos governos Tancredo Neves e Hélio Garcia.

Compartilhe esse artigo: