
Em junho de 1995, a rotina de engenheiro eletricista em uma empresa de energia era contribuir para que as correntes fluíssem conforme a lógica elétrica e para que cada problema tivesse uma solução mensurável. Mas, naquela manhã, recortei do caderno Mais! da Folha de S. Paulo uma citação de Hannah Arendt e a colei no biombo de feltro do meu escritório. Era uma frase que me perturbou desde o primeiro instante, e que continuaria me perturbando por quase dezoito meses:
“A maior falácia é a que pretende que a verdade se apresenta como um resultado no final de um processo do pensamento. A verdade, ao contrário, é sempre o início do pensamento; pensar é sempre sem resultado. Esta é a diferença entre ‘filosofia’ e ciência: a ciência tem resultados; a filosofia, nunca. O pensar começa depois de sentir o efeito fulminante, por assim dizer, de uma experiência da verdade.” (Carta a Mary McCarthy)
Para quem trabalhava com a lógica dos sistemas, aquilo soava como um erro de projeto. Se o pensamento não leva a um resultado, para que serve? E como a verdade poderia ser o começo do pensamento, e não seu objetivo?
Durante muito tempo tentei resolver aquela frase como se fosse uma equação. O que eu não percebia era que a dificuldade não estava na frase, mas em mim. Eu estava habituado a imaginar o pensamento como uma trajetória que parte de uma pergunta e termina numa resposta. Arendt parecia sugerir exatamente o contrário: primeiro somos atingidos por alguma coisa — um assombro, uma intuição, uma verdade ainda mal compreendida — e só então começamos a pensar.
As inversões criativas
Com o tempo, comecei a suspeitar que aquela estranheza não era um caso isolado. A história das ideias está cheia de situações em que um pensamento fértil nasce justamente da inversão de uma direção aparentemente óbvia.
Jesus surpreende seus ouvintes ao sugerir que se ofereça a outra face. A ética que emerge no século XX inverte o foco moral do eu para o outro. Hegel transforma a contradição, normalmente vista como um defeito do raciocínio, em motor do próprio pensamento. Até a engenharia conhece movimentos semelhantes: um motor elétrico e um gerador são, em grande medida, a mesma máquina operada em sentidos opostos.
Andando em círculos
Nem todas essas inversões são igualmente convincentes. Algumas estão erradas. Mas há algo intelectualmente valioso na simples disposição de examinar o caminho contrário. Pensar criativamente é, muitas vezes, experimentar a hipótese inversa.
Antes de voltar aos filósofos, vale fazer uma rápida parada no supermercado. Havia uma antiga propaganda do biscoito Tostines que perguntava: “Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”. A frase parecia engenhosa porque oferecia duas explicações opostas para o mesmo fenômeno. Sua força, no entanto, estava justamente em nos obrigar a percorrer mentalmente os dois sentidos da relação causal. É uma tautologia disfarçada de raciocínio. Um círculo que se apresenta como linha reta.
A propaganda do Tostines faz desse círculo uma piada. Ninguém acredita que a frase resolva qualquer coisa. Mas o que acontece quando a mesma estrutura aparece onde não esperamos? Quando um filósofo constrói um sistema lógico tão perfeito que a própria ideia de ‘círculo’ deixa de fazer sentido?
O gesto na direção oposta
Anos depois, a história de Ludwig Wittgenstein me chamou a atenção. Em sua juventude, ele acreditava ter encontrado uma espécie de circuito perfeito da linguagem, uma lógica que refletia a própria estrutura da realidade. Escreveu em seu Tractatus (1921): “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. A frase parecia uma aceitação, mas era uma tomada de posse: o mundo inteiro, desde as estrelas até a dor, cabe dentro da lógica que eu falo.
Uma conferência do matemático intuicionista holandês L. E. J. Brouwer em 1928, entre outros fatores, ajudou a abalar essa confiança. A questão era aparentemente técnica: a matemática é uma invenção ou uma descoberta? Mas o que estava em jogo era outra coisa. Se a linguagem não espelha o mundo (se ela, como a matemática, é algo que fazemos), então seus limites não são fronteiras. São regras de um jogo que podemos alterar.
O que importa aqui é que Wittgenstein teve a coragem intelectual de considerar seriamente uma direção oposta àquela que orientava seu pensamento. E essa mudança acabou transformando profundamente sua filosofia.
Voltando ao biombo
Ao reler Arendt depois de conhecer histórias como essa, comecei a enxergar sua frase de outro modo. O famoso ‘efeito fulminante’ da verdade pode não ser apenas o espanto diante de uma resposta inesperada. Pode ser também o choque provocado quando uma ideia nos obriga a inverter o sentido habitual do raciocínio.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Esse fracasso produziu em mim seu efeito mais duradouro. A inquietação provocada pela frase acabou me levando, algum tempo depois, aos bancos do curso de Filosofia da UFMG.
Durante dezoito meses, aquele pequeno recorte permaneceu preso ao biombo. Eu o lia, o relia, e a inquietação só crescia: eu não sabia o que fazer com ela. Só mais tarde percebi que o problema não era a frase. Era a pergunta que eu fazia a ela. Perguntar ‘para que serve o pensamento?’ já pressupõe alguma coisa que ainda não sabia o que era. E que talvez, lá no fundo, onde o biombo não alcança, nem seja.
Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG
Engenheiro Eletricista 1969 – UFMG



