Precisão & Consciência (por Vera Helena Castanho)

Na semana passada, assistindo ao programa Roda Viva, cuja convidada foi a cientista Tatiana Sampaio, algo me chamou a atenção, além do [...]

Na semana passada, assistindo ao programa Roda Viva, cuja convidada foi a cientista Tatiana Sampaio, algo me chamou a atenção, além do belo conteúdo científico apresentado.

A postura diante das perguntas.

Sem encantamentos vaidosos.
Sem simplificações simplistas.
Sem frases de efeito.

Havia precisão.

E precisão não é falar difícil.
Precisão é saber exatamente o que se pode, o que se deve afirmar, e como.

Diante de conteúdos técnicos, a professora Tatiana respondia com rigor.
Diante das perguntas de conteúdos mais leigos, ela tornava o raciocínio compreensível, mas não simplificava além do que era verdadeiro.

Havia consciência.
Havia maturidade emocional nessa distinção de formas de falar que parecem simples.

Porque grande parte da imprecisão nasce da ansiedade.

Ansiedade de responder rápido.
De parecer seguro.
De convencer.
De não perder lugar.
De confundir emoção com argumento.

Quando não distinguimos essas camadas internamente, nossos diálogos tornam-se confusos.

Clareza é uma forma de ética e requer lucidez sobre os próprios valores e próprias emoções.

Não apenas porque organiza a comunicação, mas porque reduz dano na medida em que favorece a compreensão recíproca.

Pensamento desorganizado produz relações desorganizadas.
Emoções imprecisas geram frustração no comunicar.
Afirmações infladas corroem confiança.

A ausência de clareza não é necessariamente mal-intencionada.
É, muitas vezes, um mecanismo de defesa.

Defesa contra o medo de não saber.
Contra o medo de parecer frágil.
Contra o desconforto da incerteza.

Maturidade não é eliminar a incerteza.
É aprender a sustentá-la sem distorcer a realidade.

Vivemos uma era de excesso de opinião e escassez de clareza.
As redes amplificam vozes, mas não necessariamente aprofundam pensamento.

Talvez o exercício mais sofisticado do nosso tempo não seja ter opinião.

Seja diferenciar o que sei do que suponho, do que sinto, do que projeto, do que temo.

Separar essas camadas exige trabalho interno.
E é esse trabalho que sustenta diálogos mais maduros, conversas que realmente constroem sentidos.

Precisão não é dureza no comunicar.
É consciência aplicada à linguagem.

E consciência é responsabilidade.
É maturidade emocional.

Precisão e consciência compõem a maturidade do pensar e do falar.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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