A mãe que desapareceu dentro da maternidade (por Dani Balieiro Amorim)

No Brasil, essa frase ainda soa como provocação. [...]

Existe uma frase que Rima Elahi-Syed disse depois de ler um livro e que não saiu mais da minha cabeça. “A família prospera quando a mãe se sente em casa em si mesma primeiro.”

No Brasil, essa frase ainda soa como provocação.

Eu cheguei até Rima pelo mesmo caminho que cheguei até outras conversas que me transformaram: através de Jessica Gabrielzyk e do seu Parenting Unpacked: Parenting Through The Loss od Self. Foi lendo sobre maternidade e perda de identidade que encontrei, nas margens desse tema, uma mulher que passou quase duas décadas acompanhando o que acontece com uma mãe quando ela para de se reconhecer.

Rima nasceu em Bangladesh, cresceu entre Londres e Nova Jersey, e há dezoito anos mora num vilarejo na fronteira franco-suíça. Fisioterapeuta pediátrica e coach parental especializada em mães expatriadas, ela conhece por dentro o que significa perder o chão. E conhece, talvez ainda melhor, o que significa ajudar alguém a encontrá-lo de volta.

O ideal que tem um custo

Existe um ideal de maternidade no Brasil que atravessa gerações sem ser questionado. A mãe que se doa por inteiro. Aquela que coloca os filhos em primeiro lugar, o parceiro em segundo, e a si mesma em algum lugar no final da fila — se sobrar tempo, se sobrar energia, se sobrar qualquer fragmento que ainda pareça dela.

Esse ideal tem um custo documentado.

Segundo dados da FGV, 48% das mulheres brasileiras saem do mercado de trabalho após a chegada dos filhos. As mulheres são responsáveis por 65% do trabalho não remunerado de cuidados no país, dedicando em média 21 horas semanais a essas tarefas, contra 10 horas dos homens. Em 2024, levantamento realizado com quase 1.900 mães revelou que nove em cada dez apresentam algum grau de esgotamento. Em outro estudo, conduzido no mesmo ano com 872 participantes, 97% disseram sentir-se sobrecarregadas quase todos os dias.

O Congresso reconheceu o problema. Em setembro de 2025, a Câmara aprovou o Projeto de Lei 5063/2023, que cria uma política nacional de apoio e prevenção ao burnout materno. O texto aguarda avaliação do Senado.

Mas os dados medem o cansaço. Não medem o desaparecimento.

O que os números não capturam

Existe uma dimensão desse problema que nenhum levantamento consegue quantificar: o que acontece com a identidade de uma mulher quando ela passa anos colocando a si mesma em último lugar.

Não é esgotamento no sentido clínico. É algo mais silencioso e mais gradual. É a mulher que sabe exatamente o que cada membro da família precisa e não consegue lembrar o que ela mesma quer. A profissional que abandonou a carreira e perdeu junto o fio que a conectava a quem ela era. A mãe que faz tudo certo e em algum momento para de se reconhecer no espelho.

Esse fenômeno não é exclusivo da mãe que mudou de país. É a experiência de qualquer mulher que internalizou o ideal da mãe abnegada profundamente o suficiente para deixar de existir fora dele. Mas nas mães expatriadas — sem rede de apoio, sem idioma familiar, sem a rotina que sustentava quem elas eram — ele aparece com uma nitidez brutal. Como se a migração fosse uma lente de aumento sobre algo que já estava acontecendo.

Por que o Brasil ainda não consegue dizer isso sem culpa

A mãe abnegada é um ideal cultural com raízes fundas no Brasil. A mulher que cuida de si antes de cuidar dos outros é vista com desconfiança. Como se o amor materno genuíno precisasse se provar através do sacrifício. Como se cuidar de si fosse subtrair algo dos filhos.

O amor é real. O problema está na confusão histórica entre amar e desaparecer.

Essa confusão não é exclusivamente brasileira, mas em terras brasileiras ela ganha uma força desproporcional. A mãe que diz que precisa de espaço é julgada. A mãe que prioriza a própria saúde mental é vista como egoísta. A mãe que admite que se perdeu no processo é tratada como exceção — quando é, na verdade, a regra.

Os dados confirmam isso. Mas dados sozinhos não mudam uma cultura.

O que muda uma cultura é quando alguém encontra linguagem para o que estava sendo vivido em silêncio.

Uma frase. Um livro. Uma abertura.

Rima Elahi-Syed disse aquela frase depois de ler Parenting Unpacked. Um livro escrito sobre a experiência de ser mãe no exterior — mas cujo tema, como a própria Jessica escreve, é universal. A mãe que perdeu a si mesma não precisa ter trocado de país para se reconhecer nessas páginas. Precisa apenas ter trocado de versão de si mesma.

E isso, no Brasil, acontece todos os dias.

A pergunta que fica não é sobre esgotamento. Não é sobre política pública, nem sobre divisão de tarefas domésticas, embora tudo isso importe. A pergunta é mais funda: o Brasil consegue imaginar uma mãe que se coloca em primeiro lugar — e ainda assim chamar isso de amor?

Rima acha que sim. Que a família prospera quando a mãe se sente em casa em si mesma primeiro.

Eu quero acreditar que ela está certa.

Para conhecer o trabalho de Rima Elahi-Syed e de Jessica Gabrielzyk, acesse @jessicagabrielzyk e @rima.preciousparenting no Instagram.

Dani Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.

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