
Sou mineiro com um pé bem atolado em São Paulo. Minha mãe era paulista. Na fazenda de meus avós, no vale do Paraíba, passei algumas das minhas melhores férias. Por lá vigorava um delicioso clima de liberdade, o que significava para as dezenas de netos fazer ali o que, em casa, não podiam. Casa de avó.
No entanto, nas conversas com os parentes e o pessoal da região, descobri quanta restrição faziam aos mineiros. A palavra mais usada era traidor. Tudo por causa da Revolução de 1932, durante a qual, segundo os paulistas, os mineiros os abandonaram, largando-os sozinhos contra todos.
Meu avô, pela semelhança física, foi confundido com um líder constitucionalista, o general Klinger, e quase o fuzilaram. Sua fazenda foi tomada à bala pelos mineiros que lhe mataram o gado, queimaram os cafezais, saquearam a casa. Em vingança, vovô dizia que os soldados mineiros eram tão ignorantes, tão ignorantes que não distinguiam o pé direito do esquerdo, daí a necessidade de, ao marchar, usarem uma palha de milho amarrada ao dedão. Em vez de esquerda-direita, diziam pé-com-palha, pé-sem-palha. História típica de uma cicatriz mantida purulenta durante décadas.
Claro que meus parentes me preservaram da pecha de traidor, apesar da origem mineira. Diziam que eu tinha “sangue” paulista.
De volta a Minas Gerais, escutava na escola que a derrota de São Paulo havia sido a melhor solução, pois os jecas-tatus tinham ousado mandar no Brasil. Onde se viu, uai?
Essa pendenga MG-SP tem mais de dois séculos. Segundo o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em seu livro Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais, deliciosa leitura por sinal, no dia dezoito de abril de 1822, um mineiro lhe revelou que os paulistas “faltam à boa-fé e não têm coragem, ninguém se pode fiar em sua palavra”. Esse mesmo elogio ouvi recentemente, agora aplicado aos mineiros, numa cidade perto de Ribeirão Preto. Também fui poupado, graças à origem de minha mãe.
Rusgas entre regiões vizinhas são usuais no mundo inteiro. Aumentam quando pretensas hegemonias entram em choque. Pela proximidade e formação, mineiros e paulistas possuem uma cultura comum, bebida na mesma fonte. Por exemplo, nos dois estados se afirma que prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Assim, nada melhor que uma boa conversa para resolver questões de qualquer ordem.
De preferência, regada a café com leite. Essa mistura casa muito bem. Eu que o diga. Aprecio desde que nasci. Ainda mais acompanhada de pão de queijo.
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
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