
Muitas vezes, com o passar do tempo, ao lembrarmos de alguns fatos acontecidos conosco, temos certas reações: será que era eu mesmo? Ou melhor, seria o Benedito?
Foi o que ocorreu com um amigo, ao se recordar de uma passagem na sua vida, ainda adolescente, quando um tio dele, que era comprador de antiguidades em cidades do interior, convidou-o para acompanhá-lo numa dessas empreitadas, aproveitando as suas férias escolares.
O rapaz se entusiasmou com o convite, afinal seria a oportunidade de conhecer lugares e pessoas diferentes e, quem sabe, até ganhar um dinheirinho a mais. Ele, que nasceu na capital e sempre morou no bairro de Santa Tereza, via sempre o seu tio saindo e chegando das suas viagens na sua Rural Willys com tração nas quatro rodas, imaginando o quanto seria bom pegar uma estrada e ir para bem longe, afinal o máximo que ele tinha viajado era para Sabará, Contagem das Abóboras e adjacências.
O carro, quando saía para viajar, estava sempre limpinho e, na volta ninguém conseguia identificar a cor do veículo.
O rapaz, de tão entusiasmado, nem se importou com esse detalhe, e no mesmo dia em que foi convidado tratou logo de arrumar sua mala.
O tio também ficou satisfeito pois, além de boa companhia, ficaria livre de desembolsar dinheiro com ajudante.
O sobrinho, naquela época, não tinha a menor ideia da sua função na viagem, a não ser a de passear. Nem do roteiro a ser seguido, mas desconfiava que era pelas bandas do norte ou nordeste de Minas.
A viagem começou e, papo vai papo vem, algumas instruções lhe eram passadas pelo parente e, à medida que o carro se afastava de Belo Horizonte, a estrada começava a ficar em péssimas condições. Para piorar a situação, a toda hora, quando não tinha um mata-burro, havia uma porteira para ser aberta, ou um areião no meio do caminho. Nesse caso ele tinha que descer do carro e utilizar uma enxada e uma pá, para que o carro pudesse sair do atoleiro. Coisas do sertão!
O rapaz se assustava a cada quilômetro rodado e já começava a sentir saudades do cinema e do futebol de férias que seus colegas deveriam estar desfrutando na capital. Também ele começava a estranhar o aspecto e alguns nomes de certos lugarejos que ele jamais poderia imaginar que existiam. Era um tal de Café Quente, Água Fria, Adobe Cozido, Xinô, Barra do Lufa, Queixada…
Próximo a um desses lugares, seu tio parou a Rural numa fazenda dessas bem pelejadas, e pediu para ele descer, chamar pelo dono e perguntá-lo se havia objetos antigos para vender. Essa primeira parada do “passeio” ficou marcada para sempre, pois até que abrir porteira e tirar areia para o carro passar, apesar de ser um trabalho pesado para um garoto não acostumado com tal ofício, ele conseguia fazer, mas negociar objetos velhos para o tio era demais.
Quando ele desceu do carro, dois ou mais desses cachorros de roça o encantoaram e o rapaz chegou a suar frio. Nesse momento, enquanto o proprietário e outras pessoas apontavam na varanda da fazenda indagando-lhe o motivo da sua presença ali.
Ele, muito atrapalhado, se perguntava: o que eu vim fazer nesse mundão meu Deus? O tio, de dentro da rural, assistia a tudo afinal pensava estar colocando o sobrinho no bom caminho, dentro daquela velha filosofia que diz: o trabalho faz bem e dignifica o homem.
O rapaz, depois do susto dos cachorros, foi acometido de uma pequena amnésia, e sem os devidos traquejos para fazer negócio, nada respondeu aos senhores, apontando para o tio que, um pouco decepcionado com a reação do sobrinho, foi obrigado a assumir a negociação com o dono que lhe vendeu, depois de muita choradeira, a preço de banana, alguns castiçais, esporas e outros objetos antigos.
A outra etapa da viagem que assustou o rapaz foi quando, ao anoitecer, pararam num daqueles lugarejos para pernoitarem numa dessas pensões bem simples. O tio já estava acostumado com esses lugares, mas para o sobrinho, criado na cidade grande, era um pouco mais difícil. Ele, que gostava de assistir televisão antes de dormir, foi obrigado, depois de tomar banho e jantar, ficar ouvindo as pessoas conversando na sala com a lamparina acesa, ou se distraindo na calçada, olhando para céu estrelado.
O sono veio rápido, afinal depois de alguns quilômetros nas costas, de abrir várias porteiras e de tirar areia debaixo do carro, o cansaço era muito grande. O pior foi que, de madrugada, esfriou um pouco e o cobertor disponível era daqueles que são chamados de cobertor bicicleta, que obriga o freguês a pedalar a noite inteira para se cobrir com dignidade. Outro pequeno sofrimento para o nosso viajante.
Mas a vida é assim mesmo, uma experiência boa aqui, outra mais ou menos acolá. O certo é que, na imaginação do jovem mancebo, depois desse acontecimento, ele jamais aceitaria um convite do tio ou de outra pessoa para aventura semelhante. Ainda mais quando na volta, com o carro todo sujo e abarrotado de bugigangas, eles foram parados pela fiscalização, sofrendo uma descompostura sem tamanho, fato que seu parente tirava de letra, mas que, para ele, soava mal.
A verdade é que, quando o rapaz chegou da cansativa viagem e encontrou com os amigos, ele não tinha muitas boas novas para contar. O jeito foi guardar alguns segredos para não ser alvo de pretensas gozações.
O curioso de toda essa história é que, tempos depois, o nosso amigo voltou a conviver com parte daquele ambiente que lhe assustou na adolescência, pois na profissão que ele abraçou, sociólogo na cultura popular, lugarejos distantes e com nomes estranhos, estradas de terra com poeira, gente simples, são coisas que com convive na maior satisfação.
Agora, ajudante de caixeiro viajante para adquirir objetos antigos, donos de fazenda desconfiados, sustos com cachorros, é quase um retrato na parede. A sorte é que não dói!
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista




