Do Mito à Tela: por que a humanização do Herói ainda incomoda (por Nelson Luiz Ferreira Pinto)

A sobrevivência de um poema composto há quase três mil anos reside justamente na sua recusa em virar [...]

A sobrevivência de um poema composto há quase três mil anos reside justamente na sua recusa em virar pedra.

Desde o tempo em que a Odisseia circulava na voz dos aedos até a versão fixada na Atenas de Pisístrato, a história de Odisseu nunca foi uma só. A própria filologia já cansou de demonstrar que o texto homérico sofreu enxertos, como o final do Canto XXIV e partes da Nekuia.

Se a Antiguidade não teve pudor em mexer no mito, causa certo espanto o rigor quase religioso com que alguns hoje tentam blindá-lo de novas leituras. Diferente de Aquiles, a marca de Odisseu no grego antigo é a mētis — aquela astúcia prática de quem sabe se adaptar para sobreviver.

Não por acaso, a figura do rei de Ítaca mudou ao gosto dos séculos. Virgílio o retratou como um grego velhaco; Dante o atirou ao Inferno por hybris; os iluministas viram nele o triunfo da razão. O mito sempre funcionou assim: um recipiente aberto onde cada geração despeja os seus próprios dilemas.

O cinema apenas deu continuidade a esse processo. Tratar a sétima arte como mera copista de livros antigos é ignorar a própria natureza da linguagem audiovisual. Racionalizar a presença dos deuses como forças da natureza ou focar o drama nas sequelas psicológicas de um soldado destruído por dez anos de guerra não é desrespeito ao original; é escolha narrativa. Os próprios dramaturgos atenienses — de Ésquilo a Eurípides — reescreviam a mitologia sem qualquer apreço por uma “fidelidade” engessada, usando o teatro para chacoalhar a política da época.

Ainda assim, a tentativa de descer o herói do pedestal para mostrá-lo frágil continua provocando um patrulhamento estético que beira o exaustivo. O debate virou uma repetição enfadonha. De um lado, a leitura neoconservadora exige a figura inabalável do guerreiro perfeito, buscando na ficção a clareza moral que falta no cotidiano; do outro, a crítica defende que a obra só faz sentido se conversar com os traumas do presente.

Trata-se de um impasse cansativo e que parece não sair do lugar. Para quem enxerga o clássico como um dogma intocável, qualquer sopro de humanidade soa como profanação. No entanto, a insistência em travar essa mesma batalha a cada nova adaptação só demonstra uma coisa: quase três milênios depois, a figura de Odisseu recusa-se a virar peça de museu — mesmo que para isso precise continuar incomodando.

Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado

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