
Os que conquistaram lugar na História não costumam ter sossego. Sistematicamente aspectos de suas vidas reentram no debate público, como acontece em torno da morte de Juscelino Kubitschek. Historiadores reviraram os registros do acidente fatal em agosto de 1976. Segundo as versões anteriores mais aceitas, o Opala em que seguia pela Via Dutra teria sido atingido por um ônibus e se desgovernado, matando-o e seu motorista, Geraldo Ribeiro. Mas a hipótese a que se chegou recentemente é de assassinato pelo governo reinante, temeroso de sua liderança política.
À semelhança vem à memória o episódio de uma das últimas viagens de mobilização partidária feita pelo ex-presidente pouco antes de sua cassação, em junho de 1964. Participei dela.
Repórter do extinto jornal “O Diário”, encarregado da cobertura da Assembleia Legislativa, à época funcionando na antiga Casa D’Itália, na rua dos Tamoios, fui escolhido pela bancada de imprensa para representá-la na viagem. Teria a companhia do deputado Homero Santos, pessedista com histórico de já sair eleito apenas com os votos de sua terra, Uberlândia, dada a solidez de sua base eleitoral. Na intimidade chamado de Neguinho, exerceu dois mandatos de deputado estadual, presidiria a própria Assembleia e iria para a Câmara Federal durante cinco legislaturas, terminando como ministro do Tribunal de Contas.
O outro era o deputado Aníbal Teixeira, originário do campo integralista, mas intimamente ligado a JK, de quem se dizia futuro ministro caso o ex-presidente retornasse ao Planalto nas eleições programadas para 1965. Na presidência juscelinista (1956/61) tivera posições destacadas, entre elas uma diretoria do Instituto Nacional de Imigração e Colonização – INIC -, com forte atuação no Nordeste. Havia apoiado o movimento de 1964, mas, como JK, terminaria cassado. Seria ministro do governo Sarney e sobreviveria, mas sua mulher não, do naufrágio do Bateau Mouche no “réveillon” de 1988 na baía de Guanabara.
Sábado, 29 de fevereiro de 1964. Antes do nascer do sol os três saímos do hotel no centro do Rio, onde nos hospedamos na véspera, vindos de Belo Horizonte. Aníbal levava uma pasta com anotações dos planos preparados para o futuro governo e trocava palavras entusiasmadas com Homero sobre as possibilidades da volta de Juscelino à Presidência. Ainda na penumbra, chegamos ao Santos Dumont, no qual se concentrava quase todo o movimento aéreo carioca. A Varig, então todo-poderosa, havia cedido ao ex-presidente um DC-3, aeronave sem pressa, mas já um ícone da aviação mundial, e dele a empresa possuía dezenas. Estava estacionado solitário a alguns metros da estação de passageiros. Embarcamos. Juscelino, então senador por Goiás, chegou logo depois, elegante, cordial, cumprimentou e se dirigiu a um espaço reservado pela própria Varig para uso durante a campanha JK-65.
Seriam umas seis horas de voo até o primeiro destino. Cada um no seu assento, conversa sobre política, naturalmente, em voz alta para vencer o barulho dos heroicos motores do avião. O repórter tinha pouco a dizer, os outros, muito, sempre otimistas com as perspectivas eleitorais. Em dado momento, por iniciativa de Aníbal, fomos até o espaço reservado de Juscelino. Sem paletó e sem sapatos, mas com sua inseparável expressão bem-humorada, fez comentários acidentais sobre os encontros previstos no Nordeste. E eu, porque estava ali para isso, lhe perguntei sobre seu programa de governo para 1965. Talvez para agradar a Aníbal, deu ênfase ao projeto de construção de quarenta agrovilas às margens da Belém-Brasília, o que seria uma sequência da interiorização do desenvolvimento do país, cujo marco tinha sido a construção de nova capital. Depois de outras citações do tipo, mandou uma mensagem de otimismo e esperança para os mineiros.
Em Maceió, um primeiro encontro, reservado, com líderes partidários, em local vizinho do aeroporto. Após um voo mais curto, Recife, reunião longa na Boa Viagem, em um clube beira-mar. Juscelino sempre demonstrando confiança.
Retorno já noite ao aeroporto de Guararapes e embarque no DC-3, que, dessa vez, consumiria longas oito horas até o Rio de Janeiro. Desembarque de madrugada no Santos Dumont, com os relógios marcando uma hora a menos, pois o horário de verão terminara à meia-noite.
Vestindo, como habitual, um terno certamente cortado pelo alfaiate belo-horizontino Hermano, Juscelino se despediu atenciosamente. Caminhou a passos firmes até o carro que o esperava. Estava com 62 anos.
Cerca de trinta dias após ocorreria o golpe militar. A caminhada política de JK seria bloqueada pouco mais de três meses depois, com a cassação do mandato de senador, decretação da inelegibilidade por 10 anos e o exílio na França.
Ariosto da Silveira é jornalista. Foi redator e editor de política dos extintos “O Diário”, “Última Hora” e “Diário da Tarde”.



