
Quando olho para a Lua, penso em um interessante paradoxo que o universo nos oferece como ensinamento.
A Terra gira em torno do próprio eixo a cerca de 1.600 quilômetros por hora. Ao mesmo tempo, percorre sua órbita ao redor do Sol em velocidade ainda mais impressionante. A Lua também segue seus movimentos incessantes de rotação e translação. E, ainda assim, vemos praticamente sempre a mesma face voltada para a Terra, graças ao fenômeno da rotação sincronizada.
Para os nossos sentidos, porém, tudo parece imóvel.
Sabemos que essa é uma sensação produzida pelos limites da nossa percepção. As leis da Física explicam que não percebemos esse movimento justamente porque nos deslocamos juntamente com ele. A aparente estabilidade não revela ausência de movimento, revela apenas que a realidade pode ser muito diferente daquilo que os nossos sentidos conseguem captar.
Inspirando-nos na Física, chegamos à mente humana, que também guarda seus mistérios.
Assim como nem todo movimento é percebido pelos sentidos, nem toda realidade é alcançada pela consciência.
Também nós nos movemos continuamente entre ideias, crenças, valores, costumes, culturas e formas de viver. Estamos imersos nessa realidade. E, justamente por fazermos parte dela, nem sempre percebemos as transformações que ela produz em nós ou aquelas que nós mesmos produzimos no outro e no mundo.
Os nossos sentidos oferecem uma extraordinária capacidade de captar estímulos do mundo físico. Ainda assim, revelam seus limites diante dos movimentos silenciosos que escapam ao que está em evidência.
Nem tudo o que é real é percebido ou imediatamente assimilado pela mente humana. E aquilo que percebemos nem sempre corresponde à totalidade do real.
A realidade é sempre maior do que aquilo que alcança os nossos sentidos.
Compreendê-la exige curiosidade, pensamento crítico, imaginação, capacidade de estabelecer relações, vivências e, sobretudo, disposição para rever as próprias certezas e ampliar o olhar.
Quando deixamos de exercer essa atitude investigativa e crítica, a familiaridade produz uma ilusão silenciosa: a de que compreendemos plenamente aquilo com que nos acostumamos e que passa a se apresentar à nossa mente como o óbvio.
O olhar deixa de investigar.
A consciência deixa de perguntar, de elaborar boas perguntas.
O pensamento acomoda-se ao evidente.
E a realidade passa a ser confundida com aquilo que simplesmente nos parece natural.
É assim que o automatismo se instala.
Nesse ponto, a consciência crítica e atenta assume um papel decisivo.
Ela interrompe o fluxo automático da percepção.
Convida-nos a pensar antes de concluir.
A observar antes de julgar.
A ampliar o olhar antes de aceitar o óbvio.
Porque o óbvio, muitas vezes, é apenas a primeira camada da realidade.
Os fatos existem independentemente de nós.
Mas a compreensão que construímos sobre eles depende da qualidade da consciência com que nos aproximamos do mundo.
Em tempos marcados pela abundância de informações, produzir mais conhecimento não é mais o maior desafio.
É formar uma consciência capaz de transformar informação em compreensão, experiência em sabedoria e percepção em discernimento.
A realidade continua acontecendo diante de nós.
A questão que hoje se impõe, talvez mais do que nunca, é se continuamos desenvolvendo a capacidade de ler a realidade em todas as suas nuances e em sua profundidade. E expandirmos a nossa consciência.
Porque é além do óbvio que a realidade começa, verdadeiramente, a revelar seus significados.
Talvez seja justamente essa a tarefa do nosso tempo: expandir a consciência para enxergar além do óbvio.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



